SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 15/09/2005
Autor: Luiz Guilherme Brom*
Fonte: Gazeta Mercantil - SP

Falta um modelo brasileiro de gestão

Ao esmiuçar os desafios e dificuldades presentes na produção fabril, a administração científica de Taylor sugere a idéia do trabalho fragmentado em tarefas especializadas

O País ainda deve uma revolução que estimule soluções administrativas originais.

O engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915), considerado um dos fundadores da administração de empresas, criou uma nova ordenação do trabalho, mais adequado à economia industrial, em oposição ao modo um tanto errático da produção pré-capitalista.

Ao esmiuçar os desafios e dificuldades presentes na produção fabril, a administração científica de Taylor sugere a idéia do trabalho fragmentado em tarefas especializadas, o que afetará profundamente as sociedades industriais muito além do muro das fábricas.

A concepção taylorista de divisão do trabalho possibilita então a produção em escala e a elevação contínua da produtividade. Conceito que será retomado e aprimorado por Henry Ford, inventor da linha de montagem e responsável pela incrível peripécia de 15 milhões de veículos produzidos entre 1908 e 1926.

A idéia do gerenciamento empresarial restrito às questões e aspectos materiais ¿ tão arraigada nas teorias pioneiras da administração ¿ sofre, entretanto, um primeiro revés ao final da década de 1920. Elton Mayo, professor de Harvard, contesta a visão exclusivamente econômica da administração, chamando a atenção para as relações sociais presentes nas organizações.

Liderança, motivação e comunicação estréiam então como objetos de estudo dessa emergente área de conhecimento. Daí para a frente, as teorias da administração avançam pelo século XX, ora reagindo às suas próprias concepções, ora recorrendo a outros campos de conhecimento.

Outra corrente de rejeição a Taylor, a teoria comportamental, alega que pessoas não são máquinas e que uma empresa é um ambiente repleto de sentimentos e elementos invisíveis à primeira vista: amizade e hostilidade, cooperação e competição, grupos e regras informais. Max Weber, por seu lado, cede ¿ post-mortem ¿ aos analistas da administração sua brilhante pesquisa sobre burocracia, cujos desvios e insanidades são tão bem conhecidos dos brasileiros. Contrapondo a Weber, a teoria estruturalista sugere a combinação de duas estruturas verificáveis em qualquer organização: a formal ou oficial e a informal, que é dada por comportamentos e atitudes informais dos grupos sociais.

Na década de 1960, juntamente com a chegada da computação nos escritórios, a teoria de sistemas defende a visão da empresa como um conjunto de partes relacionadas que, de forma integrada, se movimenta no sentido de metas e objetivos programados.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, o engenheiro Ohno, diretor da fábrica de automóveis Toyota, enunciava suas reflexões que iriam revolucionar a indústria japonesa e surpreender o Ocidente industrial. Com a "fábrica mínima" e a "administração pelos olhos", o toyotismo ensinou como produzir com qualidade em qualquer escala.

O volvismo da Suécia, o associativismo do norte italiano e a indústria de tecnologia do Vale do Silício (EUA) são outras experiências gerenciais inovadoras do último quartil do século XX. O macroambiente turbulento dos novos tempos, todavia, justifica a empresa enxuta, mutante e ágil, que a teoria da contingência considera indispensável para o enfrentamento dos riscos crescentes.

Mas a volatilidade dos mercados, a crise e o medo também fizeram nascer um novo nicho de mercado: a partir da década de 1980 explode a literatura de negócios em linguagem popular, sem origem científica ou acadêmica, uma espécie de auto-ajuda da administração.

Essa abordagem simplista impulsiona o modismo na área da gestão, não apenas no mercado editorial, mas também com produtos de consultoria, cursos, revistas, vídeos e palestras. A administração ganha uma razão em si mesma, tornando-se ela própria um exuberante segmento de negócios.

Se as grandes regiões do mundo desenvolvido produziram ¿ em diferentes momentos ¿ modelos inovadores de gestão, é notável a ausência de uma proposta genuinamente brasileira. País de empresários corajosos e diligentes, malgrado o ambiente hostil ao empreendedorismo, o Brasil ainda não conseguiu formular seu padrão de administração que ressalte as especificidades culturais, a exemplo do que fizeram nações como Japão, Suécia ou EUA.

Qualidades particulares que resultem em diferenciais competitivos. O País ainda deve uma revolução no campo da gestão que valorize a indiscutível criatividade de sua gente, que estimule soluções administrativas originais e que democratize o acesso ao empreendedorismo. Produtos nacionais de maior sucesso mundial, que expressam com toda força a genialidade brasileira, possuem raízes na cultura popular, com praticamente nenhuma influência da administração profissional. É o caso da música, do futebol, do carnaval e das artes populares em geral.

Se o notável talento brasileiro já permeia algumas áreas da ciência, o mesmo não se pode dizer do campo da gestão, que de forma geral ainda se prende a modelos importados, mal adaptados, autoritários e freqüentemente anacrônicos. As empresas brasileiras, tanto quanto os órgãos da administração pública, precisam abrir espaços de liberdade ao potencial inovador de seus profissionais.

No âmbito das escolas, por outro lado, o desafio está em contextualizar a pesquisa na administração de empresas, em conectar-se globalmente sem cair no peleguismo metodológico e pedagógico. A força competitiva de um modelo brasileiro de administração residirá justamente no reconhecimento dos atributos culturais do País.

*Superintendente institucional da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap)


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