SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 03/10/2005
Autor: Diário Catarinense
Fonte: Diário Catarinense

Dívida consome todos os esforços

Pela primeira vez, Santa Catarina vai sediar o Congresso Brasileiro de Economistas, que começa amanhã e se estende até a sexta-feira, no Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, com a presença de mais de mil economistas de todo o país. Em sua 16ª edição, o Congresso conta com as participações confirmadas do vice-presidente da República, José Alencar, e do ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Carlos Lessa.

Com a responsabilidade de organizar o evento, o presidente do Conselho Regional de Economia de Santa Catarina (Corecon/SC), Pedro Moreira Filho, aposta na atualidade do tema escolhido - Políticas públicas e desenvolvimento: a armadilha do endividamento interno e externo - e na proposta diferenciada da conferência, com apresentação de ponto e contraponto em todas as palestras, para garantir dinâmica e polêmica aos debates.

- Durante o congresso, vamos lançar um prêmio de desenvolvimento, em convênio com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo-Sul (BRDE), com o objetivo de identificar os núcleos de empresas, arranjos produtivos, chamados clusters, dos três estados do Sul - antecipa.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Diário Catarinense, na qual Moreira apresenta o 16º Congresso e avalia aspectos da conjuntura econômica nacional.

- Há dois anos que tentamos trazer o Congresso para Santa Catarina. Disputamos com a Bahia, mas nosso chamariz foi apresentar a qualidade de vida da Capital e organizar o evento próximo às festas de outubro do Estado. Os trabalhos terminam na sexta-feira, mas há programação para os convidados participarem da abertura da Oktoberfest, em Blumenau, e da Marejada. Quando organizamos o evento, escolhemos o tema do endividamento, considerando que seria um assunto interessante para o cenário futuro do país. Acabamos acertando em cheio, a questão da dívida do país é bastante atual e preocupante.

- O Brasil acumulou superávit primário, de janeiro até agosto, de R$ 79 bilhões. Mas os juros da dívida foram de R$ 105 bilhões. Isso equivale a uma dívida pública de R$ 973 bilhões, mais da metade (51,7%) do PIB (Produto Interno Bruto), que está em torno de R$ 1,8 trilhão. Tudo o que estamos fazendo neste país, todos os esforços, os contingenciamentos de investimentos, são em vão. A dívida está deste tamanho porque o governo passou 17 meses aumentando os juros. Toda a vez que aumenta a taxa Selic, aumenta a dívida pública. Na hora que o país vai pagar os juros, gasta todo o superávit primário e ainda falta dinheiro. Esta dívida é hoje, em valores nominais, mais alta do que era em janeiro.

- Os palestrantes que vem discutir conosco, dentro deste tema da dívida, vão debater outros problemas relativos à conjuntura econômica nacional. Porque existe relação com a reforma tributária, as políticas macroeconômicas, comércio exterior, nova economia do desenvolvimento, ajuste fiscal e cambial. O mais interessante é que vamos promover sempre palestras com ponto e contraponto. Foi uma inovação. Além do tema central, teremos dois palestrantes com opiniões diferentes sobre os assuntos abordados.

- Temos que fazer uma pergunta. Que país é este? Que país é este onde existe uma série de problemas internos e indicadores ainda positivos? Numa mesma semana tivemos CPIs do mensalão, dos correios, dos bingos, crise do Severino (Cavalcanti, ex-presidente da Câmara dos Deputados) e até problemas no futebol, e registramos o menor índice do risco-país, maior evolução da Bolsa de Valores, e o dólar com queda, abaixo de R$ 2,25. Então, me parece que o país está sendo protegido através de um conjunto de ministros (da Fazenda, Antonio Palocci, da Agricultura, Roberto Rodrigues, e do Planejamento, Paulo Bernardo) e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. São essas pessoas e o que dizem e fazem que têm mantido a economia brasileira estável. Eles têm mostrado lá fora que o Brasil mantém a credibilidade perante os credores internacionais. Se não fosse isso, a economia estaria mais vulnerável.

- Esta estabilidade da economia é relativa. Quando o governo fez a previsão de que a inflação seria de 5,1% em 2005, o mercado financeiro fez uma projeção de até 7%. O mercado já reduziu quase 20 vezes sua projeção e está chegando a posição do governo, hoje prevê 5,2%. Isso leva o governo a refletir sobre a taxa de juros. Para que possa, a partir daí, manter uma série de reduções. O Brasil precisa que os juros caiam porque o país está paralisado nas outras áreas. Não tem investimento em infra-estrutura, educação, saúde. O nosso Estado, recebeu menos de 5% do previsto no orçamento, em função do contingenciamento dos investimentos.

- O Brasil precisa de investimento sob pena de sofrer uma estagnação futura. Vai faltar energia. Se um dia o Brasil tiver que trabalhar a toda carga, não teremos energia suficiente. Nós precisamos de reaparelhamento dos portos. O Brasil vive no curto prazo. Não estamos pensando no longo prazo. E o futuro está muito incerto para a economia e para os brasileiros. A gente já vê, em Santa Catarina, que empresas reduziram a produção industrial. Começa o desemprego. As madeireiras e moveleiras que não conseguem exportar com o dólar tão baixo, já estão demitindo.

Há tendência, se o governo não atentar para isso, que os nossos superávits comerciais - que este ano vão bater novos recordes - comecem a cair. Se não houver reoxigenação e uma política cambial mais favorável à produção nacional, é possível que daqui a dois, três anos o Brasil venha sofrer uma freada brusca no crescimento das exportações e nos investimentos externos. A previsão é de que o dólar feche o ano a R$ 2,10. Isso seria muito ruim porque o custo de produção e dos insumos só aumentou. Nossa indústria não tem condição de colocar lá fora produtos com o dólar neste patamar.

- O governo tem que trabalhar para abrir mercados. Tem que fazer ajuste de câmbio e investimentos em infra-estrutura. A economia funciona com a força do setor produtivo. Para que a economia funcione bem, a indústria precisa estar produzindo com toda a sua capacidade para gerar empregos, que geram renda, consumo e poupança. Se não houver emprego, nem renda, reduz o consumo e acaba a poupança interna. O que está se avizinhando é um país com crescimento tímido de 3,5%, quando o mundo e os países emergentes estão crescendo em níveis bem superiores. Estamos na retaguarda do crescimento mundial.

- O Brasil tem muito potencial, mas a carga tributária é sufocante. Hoje, qualquer empresa ou cidadão tem que trabalhar para pagar 40% em impostos. O governo tem que resolver o problema da previdência social. Que é uma torneira. Está cobrando dos aposentados e mesmo assim não resolve o rombo. O governo tem que proteger mais a indústria nacional e criar condições para aumentar o emprego. Com incentivos, possibilidades de crédito com juros menos absurdos, com uma carga tributária justa. De outra forma, as empresas não têm como investir. Bastaria o governo chamar seus credores, como a Argentina fez e mostrar a realidade, sem dar calote. Porque hoje trabalhamos apenas para mostrar lá fora que somos bons pagadores, às custas do sacrifício da nossa população.

- Esta história de combater inflação com taxa de juros ocorreu quando os índices inflacionários eram de 1000% ao ano. Funcionou. Elevou juros para 50%, ou seja, proibiu as pessoas de pegar dinheiro com o objetivo de baixar a inflação para 2%. Ela não chegou a isso, ficou em 10%. Mas o governo gostou e assumiu compromisso com credores. Adotou a política neoliberal de seguir a cartilha dos financiadores internacionais, como FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial, de garantir ajuste econômico. Que significa apertar o cinto e trabalhar pela política de credibilidade. Parece que gostaram disso. Mas hoje não tem cabimento ofertar a maior taxa de juros real do mundo, a 14,5%. Isso é três vezes a média dos juros internacionais. Atrai capital especulativo, mas o investimento fixo no setor produtivo não vem na mesma proporção. E aumenta as dívidas públicas interna e externa. Não é a única política para combater a inflação. É muito sacrificante.

*Pedro Moreira Filho, presidente do Conselho Regional de Economia de SC


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