SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 03/11/2005
Autor: Estado de São Paulo
Fonte: Estado de São Paulo

Os verdadeiros desafios dos pequenos

No atual contexto de reestruturação industrial, estamos assistindo à convergência de dois tipos de fenômenos distintos e ao mesmo tempo complementares: uma sensível mudança nas relações interorganizacionais, principalmente das médias, pequenas e microempresas, voltadas para maior cooperação em várias atividades (redes de cooperação produtiva); e a formação de aglomerados de empresas numa dada localidade ou região (chamados de clusters regionais ou arranjos produtivos locais).

As políticas públicas focalizadas para a promoção destes arranjos e redes se mostram imprescindíveis aos países em desenvolvimento, como o Brasil, onde 52,8% da força de trabalho está nas pequenas e microempresas. Estas, por seu turno, apresentam, segundo dados do Sebrae, uma elevada taxa de mortalidade, de 39% somente no primeiro ano de atividade.

O debate em torno do fenômeno das aglomerações de empresas e, em particular, a emergência dos chamados arranjos cooperativos locais, no cenário da reestruturação industrial deste início de milênio, devem ser abordados sob um contexto mais amplo, no qual significativas mudanças, tanto de ordem técnico-econômica como também socioinstitucional, vêm ocorrendo recentemente nas sociedades contemporâneas, procurando destacar que tais mudanças podem estar associadas a uma transição de um conjunto de paradigmas, em especial ao de produção industrial.

A proximidade geográfica de produtores de uma mesma cadeia produtiva pode, em muitos casos, facilitar a geração e a difusão de conhecimentos relevantes para a ocorrência das eficiências coletivas (e não apenas as eficiências individuais dos atores econômicos), podendo, também, gerar impactos positivos no processo de desenvolvimento auto-sustentado de um dado local e de uma região.

A existência em tais locais de universidades, escolas técnicas e centros/institutos de pesquisa proporciona maior acesso ao conhecimento diferenciado de base científica e tecnológica. Desta forma, pode-se vislumbrar para as empresas de menor porte uma série de vantagens derivadas de tais aglomerações e das interações interorganizacionais, referentes, principalmente, à possibilidade de difusão de conhecimentos tácitos por causa da proximidade espacial entre os agentes.

Logicamente que tais possibilidades dependem do contexto social e de como as instituições presentes numa dada localidade interagem. Tal conhecimento tácito permite, como bem observou o economista Alfred Marshall há mais de meio século, que "os segredos das empresas deixem de ser segredos e acabem pairando no ar, de modo que até as crianças possam aprender inconscientemente". A clássica frase de Marshall destaca a facilidade do processo de circulação de informações no interior de um dado cluster de empresas por meio de canais próprios de comunicação ou fontes especializadas, podendo provocar um transbordamento de tecnologia e conhecimento, fenômeno conhecido na literatura por spillover tecnológico.

No caso brasileiro, ainda que não se encontrem no mesmo nível dos distritos industriais das regiões da chamada Terceira Itália (Emiglia-Romana, Lombardia e Vêneto), identificamos alguns exemplos destas aglomerações de sucesso: Vale dos Sinos, produtor de calçados femininos no Rio Grande do Sul, e o de cerâmica de revestimento no Estado de Santa Catarina. Já no Estado de São Paulo, merecem destaque os clusters couro-calçadistas em Franca, Jaú e Birigüi; o de móveis em Votuporanga; e o de cerâmica de revestimento de Porto Ferreira e o de Santa Gertrudes.

O fenômeno das aglomerações de empresas e das redes de cooperação interorganizacionais de médias, pequenas e microempresas nos faz refletir sobre as reais possibilidades da formação de arranjos cooperativos para inovação e produção: parecem constituir verdadeiros desafios, sob uma nova perspectiva de desenvolvimento socioeconômico de regiões e nações.

A falta de maior grau de confiança e a de canais de comunicação eficazes entre as diferentes categorias de agentes, que devem compor tais arranjos, são os principais obstáculos que se apresentam no seio deste desafio. De forma mais objetiva, vale dizer que os maiores desafios se encontram nas fronteiras entre as ciências básicas, ciências aplicadas/tecnologia, indústria e mercado.


João Amato Neto*, professor livre-docente do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, coordenador do núcleo de pesquisa Redes de Cooperação e Gestão do Conhecimento (www.prd.usp.br/redecoop), é consultor da Fundação Vanzolini


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