SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 21/11/2005
Autor: Cristina Borges Guimarães
Fonte: Gazeta Mercantil - SP

"Assumir o controle do capital intelectual é o desafio"

A melhora na performance econômica, na eficiência dos negócios e no setor de infra-estrutura foram os principais responsáveis pelo desempenho do País

O País precisa manter a inflação contida e a taxa de juros não pode cair muito rápido.

O presidente do IMD - International Institute for Management Development, Peter Lorange, avalia positivamente o encaminhamento dado pelo governo Lula às políticas fiscal, monetária e cambial.

O instituto é responsável pela elaboração do IMD World Competitiveness Yearbook, um relatório de competitividade global publicado há 26 anos que avalia 53 países.

No Brasil, a pesquisa é realizada em parceria com a Fundação Dom Cabral. O levantamento deste ano mostrou que o Brasil ganhou duas posições no ranking de competitividade.

A melhora na performance econômica, na eficiência dos negócios e no setor de infra-estrutura foram os principais responsáveis pelo desempenho do País, que subiu da 53 posição para a 51. Lorange apontou em entrevista à Gazeta Mercantil o desenvolvimento da infra-estrutura e as reformas das instituições como os maiores desafios para o crescimento econômico.

Quanto à crise política, se limitou a dizer que a situação atual não é "ideal". Como ponto positivo, ele destacou uma questão microeconômica: o empreendedorismo do empresário brasileiro. Lorange encerrou na sexta-feira uma visita de três dias ao Brasil, que concentra 5% dos negócios do instituto. O IMD usa a estratégia de educação prática orientada para executivos e presta consultoria para empresas como Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Nestlé, Petrobras, Votorantim e Bunge, entre outras.

Gazeta Mercantil - O grande destaque atual do desempenho econômico brasileiro é o comércio exterior. O senhor considera os resultados comerciais do País sustentáveis no longo prazo?

Peter Lorange - Como todos sabemos, o câmbio flutua. Há três anos o câmbio estava muito desfavorável ao Brasil. Agora a situação se inverteu. O nível de câmbio mais realista seria algo entre estes dois extremos. Para sustentar o superávit comercial atual, o Brasil precisa assumir o controle de seu capital intelectual. É necessário criar mecanismos mais ágeis para a proteção das patentes e os tribunais devem agir com mais interesse nessas questões.

Isso é muito importante para sustentar o crescimento das exportações. O conceito e o desenho dos produtos são uma questão de propriedade intelectual, que não está restrita a empresas de alta tecnologia como a Embraer e atinge todas as empresas por meio de embalagens e rótulos, por exemplo.

Gazeta Mercantil - A política cambial brasileira está no caminho correto?

Lorange - A política cambial brasileira está correta e a sobrevalorização do real deve ser superada.

Gazeta Mercantil - Na sua opinião, qual seria a origem da apreciação do real?

Lorange - Um grupo relativamente pequeno de agentes econômicos, os especuladores, antecipam esta valorização, que não está ligada ao fluxo real de comércio, mas estritamente a movimentos especulativos. O real deve se desvalorizar quando estes agentes ficarem pessimistas.

Gazeta Mercantil - Existe alguma relação entre os recorrentes recordes de superávit comercial alcançados pelo País ao longo deste ano e a cotação do real?

Lorange - Sim e não. O crescimento acelerado das exportações é o motivo do otimismo dos especuladores, que jogam com isso e apostam na sobrevalorização. É psicologia.

Quando eles mudarem de opinião, o câmbio também muda. Não há nada que o Banco Central possa fazer uma vez que o regime é flutuante mesmo.

Gazeta Mercantil - A política monetária contracionista adotada no Brasil é, na sua opinião, realmente necessária?

Lorange - Absolutamente. O País precisa manter o controle da inflação, por isso a taxa de juros não pode cair muito rápido. Mas o dilema é que manter taxa de juros elevadas por muito tempo inibe o crescimento econômico. Na minha opinião, a política monetária brasileira está bem equilibrada e tem sobrevivido bem à oposição da indústria.

Eu sou a favor dessa disciplina. Seria mais fácil atender a demanda dos empresários e deixar a inflação voltar a subir.

Gazeta Mercantil - Os juros elevados são realmente um entrave para o aquecimento da economia doméstica?

Lorange - Sim, mas esse crescimento precisa ser equilibrado para não gerar pressões inflacionárias. O Brasil é muito bem avaliado no IMD World Competitiveness Yearbook nos quesitos criação de valor agregado micro e macroeconômicos. Também considero que o País tem conduzido muito bem a política fiscal. O maior problema é a falta de infra-estrutura. Aí sim o Brasil precisa fazer mais e talvez este seja o setor que mais sofre com as altas taxas de juros. Outro problema a ser enfrentado é o baixo nível de eficiência do setor público, que nada tem a ver com a política fiscal.

Gazeta Mercantil - O senhor vê as Parcerias Público-Privadas (PPP) como solução para o setor de infra-estrutura?

Lorange - Não sei. Pessoalmente acho que o grande problema da infra-estrutura é a dificuldade de planejamento governamental num horizonte de longo prazo. A visão dos políticos é de curto prazo, enquanto estes projetos são de longo prazo.

Gazeta Mercantil - A crise política que afeta o governo Lula tem reflexos na economia ou, mais especificamente, no setor de infra-estrutura? Essas denúncias serão superadas ou, seja o atual presidente reeeleito ou não, poderão atingir o próximo governo?

Lorange - A situação política não é a ideal. É muito importante a confiança no governo federal para o andamento de projetos na área de infra-estrutura. E o processo eleitoral torna as decisões políticas mais voltadas para o curto prazo e excluem o setor de infra-estrutura.

Gazeta Mercantil - O que falta para o Brasil ampliar a sua participação no comércio internacional? O senhor diz que o Brasil pode desenvolver ainda mais sua performance internacionalmente e caminhar rumo ao crescimento econômico. Como tornar o Brasil mais competitivo?

Lorange - Há 30 anos, havia muito otimismo e o Brasil era considerado a economia do futuro, mas não aconteceu assim. Naquela época o País era um mero exportador de matéria-prima. E para um país crescer é preciso adicionar valor. Hoje a CVRD não exporta só minério, mas ferro-liga. A Sadia não vende apenas frango congelado, mas várias marcas de diferentes linhas de produtos alimentares. Por isso reforço a importância de um sistema eficiente de registro de patentes e de uma legislação forte para proteger a propriedade intelectual brasileira, para dar continuidade a esse processo de adição de valor agregado.

Gazeta Mercantil - A expansão do PIB brasileiro está muito dependente das exportações e consequentemente do cenário internacional?

Lorange - Não considero o Brasil dependente demais de exportações. Entretanto, o desafio é fazer com que o operário brasileiro ganhe produtividade suficiente para ser melhor remunerado. Com o crescimento da renda disponível, o consumo será ampliado e a economia crescerá apoiada pela demanda interna. Existem exceções, como Aracruz e Embraer, onde os trabalhadores são altamente qualificados e ganham bons salários.

A tendência geral hoje no Brasil é de expansão da renda disponível, o que é bastante positivo.

Gazeta Mercantil - Quais são as principais reformas necessárias para o Brasil acelerar seu crescimento?

Lorange - Vou resumi-las em quatro mais importantes: a questão da propriedade intelectual, para dar continuidade ao processo de geração de valor; a melhoria da infra-estrutura; a manutenção da estabilidade de preços, com a redução cada vez maior da inflação, torna possível cortar a taxa de juros e permitir que a economia cresça; e, por último, garantir a segurança pública.

Gazeta Mercantil - Qual a contribuição da indústria para as reformas?

Lorange - O setor privado precisa assumir a responsabilidade de treinar seus funcionários para garantir que eles ganhem produtividade. Tenho uma impressão muito boa da atuação dos empresários brasileiros nessa área de treinamento. Até algumas empresas familiares já realizam esse tipo de trabalho. Mas há exceções que, certamente, terão problemas.

A construção pesada também precisa se abrir mais, pois o preço das obras cairia.

Gazeta Mercantil - Qual a contribuição do setor financeiro para as reformas, uma vez que os spreads praticados no Brasil estão entre os mais altos do mundo?

Lorange - O setor financeiro ainda é muito fechado no Brasil. Muitas áreas da economia brasileira foram abertas, mas não a área financeira. Com a abertura deste setor só restariam as instituições "verdadeiras" (sólidas), aumentando a eficiência do sistema e, assim, o spread bancário cairia com maior concorrência.

Gazeta Mercantil - Há quem diga que os BRICs destacados pelo Goldman Sachs foram reduzidos a RIC. O senhor acredita que isto tenha acontecido? Por quê?

Lorange - Eu acredito que o País ainda tem grande capacidade de atrair investimentos estrangeiros. O otimismo que existia há 30 anos diminuiu. Mas, com a continuidade do processo de adição de valor agregado na sua produção, a capacidade brasileira de atrair investimentos estrangeiros aumenta. Não há duvidas de que a economia e o povo brasileiros têm muitos atrativos.

Gazeta Mercantil - Sustentar o crescimento lucrativo tem se tornado uma tarefa difícil para muitas empresas e países, especialmente no ambiente dinâmico em que estão inseridos atualmente. Estratégias de sucesso são rapidamente alteradas e habilidades distintas, copiadas ou substituídas. Como o senhor vê o processo de internacionalização das empresas no Brasil?

Lorange - Fiquei muito bem impressionado como o desempenho dos exportadores brasileiros do setor de alimentos ¿ como Sadia e Perdigão ¿ com negócios em Tóquio, no Oriente Médio, Moscou e Europa. É uma atividade com uma força empreendedora muito importante. Percebo um empenho muito forte do empresariado brasileiro em se internacionalizar e operar no mercado global. E o trabalho do instituto é desenvolver lideranças que possam trabalhar neste esforço de internacionalização. Não se trata de apenas exportar, é preciso mudar a visão estratégica do empresário.

Gazeta Mercantil - Este esforço de internacionalização é uma característica de toda a indústria brasileira ou está concentrado nas grandes empresas? Ainda é pequeno o número de multinacionais brasileiras?

Lorange - Não considero pequeno o número de multinacionais brasileiras, ao contrário.

Os empresários daqui têm muita vontade e energia para cumprir a agenda internacional.

Em outros países se fala muito em internacionalização e se realiza pouco. No Brasil as ações são mais efetivas. Não se trata de estatística e sim de mentalidade. O trabalho do IMD está mais concentrado em grandes empresas, mas isso não significa que este esforço não seja geral.


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