SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 05/01/2006
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

Infelicidade ronda mundo do executivo

Durante 23 anos, com base em centenas de entrevistas, Wong conheceu a angústia de uma categoria profissional

"Headhunter" dos mais influentes do país por mais de 23 anos, Robert Wong conhece a fundo a maior parte dos principais executivos brasileiros. E é enfático quando fala deles. "A maior parte dos executivos é infeliz."

A constatação é feita com base nas centenas, senão milhares, de entrevistas que fez com candidatos a presidentes, diretores ou gerentes de grandes companhias ao longo do tempo em que esteve à frente da Korn & Ferry, umas das principais empresas de recrutamento do mundo.

Chinês de nascimento e fora do mundo dos "headhunters" há um ano, Wong decidiu escrever um livro para tentar explicar a razão de tanta infelicidade. A causa, segundo ele, está no desequilíbrio generalizado que toma conta da sociedade ocidental. "As pessoas estão preocupadas demais em conquistar, ganhar dinheiro, status, e se esquecem delas mesmas", afirma ele, um ex-desequilibrado que foi eleito pela revista inglesa "The Economist" como um dos 200 "head- hunters" mais influentes do mundo.

Em seu "O Sucesso Está no Equilíbrio", o taoísta Robert Wong garante ter unido a sabedoria oriental, o pragmatismo americano e a criatividade brasileira para mostrar às pessoas que atingir o equilíbrio é possível. E que, com ele, tudo fica melhor na vida.

Valor: Por que a escolha do tema equilíbrio? O senhor percebeu que havia um desequilíbrio generalizado no mundo corporativo?

Robert Wong: Eu trabalho há 23 anos como "headhunter" e conheço quase todos os executivos brasileiros. A maior parte desses executivos com que eu lido o tempo todo podem estar profissionalmente bem, materialmente ricos, muito poderosos, mas, posso assegurar, estão também muito infelizes. Posso falar com propriedade sobre isso porque eu já estive desequilibrado. Fui um "workaholic", viajava demais, tudo que eu fazia era demais.

Valor: O senhor generaliza isso?

Wong: Sim. A quase todos os executivos falta alguma coisa, e normalmente falta algo no lado pessoal. Praticamente todos, com raras exceções, quando perguntados se lamentam algo que fizeram ou deixaram de fazer, não reclamam de não terem fechado algum contrato milionário, ou não terem comprado mais uma empresa. Todos lamentam não terem abraçado seu filho mais, não terem aproveitado a vida no seu dia-a-dia.

Valor: Onde está a raiz de tanta infelicidade? Trata-se de uma questão pessoal ou há uma fonte externa, como a procura desenfreada por lucros e a competição?

Wong: Não é possível definir os percentuais de responsabilidade, mas sem dúvida os dois fatores são preponderantes. As pressões, a comparação com os outros, a competição, criam uma angústia terrível. Se você quer alguma coisa e não consegue, você vai ficar angustiado. Se você quer alguma coisa e consegue, você está preparando sua próxima angústia, porque você vai querer algo mais. No aspecto interno, eu digo que existem duas felicidades. Há a felicidade instantânea, como ganhar mais um bônus, fechar um grande contrato ou receber uma promoção. Essa felicidade causada por fatores externos é momentânea. Quando os efeitos passarem, você volta ao que era antes. Vai querer mais e mais. E tem outra felicidade que eu chamo de alegria, que é independente de fatores externos. É uma coisa que você carrega dentro de si. Poucas pessoas conseguem chegar nisso. O problema é que o homem não sabe como parar para olhar para si mesmo e encontrar seu equilíbrio. Você já viu um animal comer mais do que precisa?

Valor: Peixes de aquário podem morrer de tanto comer.

Wong: Porque ele é condicionado a isso pelo homem. Mas na natureza os animais sabem o que é suficiente, têm respeito pelo ambiente onde vivem. O homem perdeu essa capacidade.

Valor: Assim como o peixe é induzido a comer demais, o ambiente corporativo de alta competição não está induzindo os profissionais a fazerem tudo demais?

Wong: Eu acho, sim, que existe uma competitividade grande. A sociedade, os governantes, as empresas, extrapolaram no incentivo à competitividade. Vou dar um exemplo interessante. No Oriente, nas artes marciais, você tem apenas duas categorias: o mestre e o aprendiz. Quando o Ocidente importou essas artes marciais, também inventou características competitivas, que não existem lá. Colocaram faixa branca, amarela, cinza e tantas outras que nem sei. Todas essas hierarquias são uma forma de competição. E isso, claro, impacta as pessoas. Eu acho que competição é uma coisa boa, só que, exageradamente, não é legal. Da mesma forma que coletivismo exagerado não é bom.

Valor: Esse livro é um desabafo em relação ao ambiente corporativo, ao dia-a-dia de uma empresa, que tem uma estrutura hierárquica ainda muito militarizada? A vida corporativa o sufocou?

Wong: Não sei se foi um desabafo, mas talvez seja a extrapolação, colocar para fora meus pensamentos. Eu vivenciei isso intimamente. Tem uma pergunta que faço sempre nas minhas entrevistas com os candidatos a executivos, que é: se você pudesse voltar no tempo o que você estaria fazendo hoje? Tenho certeza que a grande maioria deles não estaria fazendo o que faz hoje. O engenheiro gostaria de ser médico; o médico, engenheiro; o dentista queria ser jogador de futebol... Isso mostra que houve um erro de escolha lá no passado. Tudo isso remete ao ponto crucial das causas de todas as frustrações: a falta do autoconhecimento. As pessoas não se conhecem de fato. Muitas estão ganhando rios de dinheiro. E daí? Conheço milionários que são extremamente infelizes. Algo lhes falta, e eles procuram compensar isso com casa, dinheiro, sucesso, mulheres. Suas vidas se transformam em suas conquistas e eles esquecem quem são de fato em sua essência.

Valor: Mas não são esses os valores que balizam nossa sociedade hoje e principalmente o meio no qual o senhor atuou por tantos anos?

Wong: Sim, é verdade, mas isso não justifica toda essa infelicidade. Posso dizer isso com propriedade, porque eu já fui desequilibrado e hoje tenho o equilíbrio.

Valor: O livro é uma crítica?

Wong: Não. É um abre olhos. Esses valores também são bons. Tudo é bom. O exagero é que não é bom. O equilíbrio é bom. Isso não é uma crítica à sociedade, é uma crítica ao desequilíbrio.

Valor: Mas, afinal, a causa desse desequilíbrio está no indivíduo ou no meio que ele habita?

Wong: O meio pode ser o estopim do desequilíbrio. Muita gente se diz vítima das circunstâncias. Nós não somos vítimas de nada. Nós somos responsáveis pelo o que ocorre conosco. Não existem problemas; existem desafios. Se encararmos os desafios como uma visão positiva, criamos uma oportunidade. Mas ao encaramos de forma negativa, aí temos um problema. Nós não temos controle do meio externo, mas meu papel em relação a ele eu controlo. A causa do desequilíbrio está em você mesmo.

Valor: O senhor afirma que para encontrar o equilíbrio as pessoas precisam ser mais naturais, não seguirem tão cegamente as normas pré-estabelecidas. Esse não é um conselho arriscado para ser dado em um momento em que a maior parte das empresas ainda segue uma estrutura hierárquica rígida?

Wong: Tem muita gente com um grau de criatividade muito grande e muitas empresas têm medo de perder o controle sobre essas pessoas, por isso tantas regras para controlar. O fato é que as empresas controlam. E por que controlam? Porque elas não confiam nas pessoas. Se você confia em alguém, você delega; se você não confia, você controla. É claro que o ser humano é imperfeito e as regras são necessárias. Mas o que acontece, novamente, é que há um desequilíbrio. Existem muitas normas, e boa parte delas são hipócritas e falsas. Segui-las cegamente é, como eu chamo em meu livro, ser normal, e não natural. O que acontece é que hoje nós estamos muito para o lado do normal, seguindo muitas normas e regras. Quem são as pessoas mais felizes hoje? As crianças, porque elas são naturais, espontâneas e não seguem tantas regras pré-estabelecidas. Se voltarmos a ser mais crianças, nos libertarmos dessas amarras muitas vezes hipócritas, seremos mais felizes.

Valor: O senhor diz não criticar os valores que regem nossa sociedade atual. No entanto, nesta conversa, o senhor citou vários pontos negativos que são muito característicos da sociedade ocidental. Utilizando seu próprio conceito, o senhor é mais normal do que natural quando diz não criticar o conjunto de valores que compõem nossa sociedade hoje?

Wong: Eu não posso criticar a sociedade, eu posso fazer observações. Eu posso criticar a mim mesmo, apenas. Em relação à sociedade, eu sou um observador.

Valor: Qual a diferença entre crítica e observação?

Wong: Observação é observar coisas. Eu falo o que eu penso, sem emitir juízo de valor. Eu nunca digo que é negativo, porque o que pode ser bom para mim pode ser ruim para os outros. Já fiz muito isso. Influenciei muita gente. Agora, apenas o que posso falar são meus pensamentos, sem querer mudar o mundo.

Valor: Esse trabalho é o resultado de um conflito entre o Robert Wong ocidental e o Robert Wong oriental?

Wong: Não sei se é conflito; talvez um reencontro com as raízes.



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