SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 13/02/2006
Autor: Marcelo Billi
Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO

Ciência avança no país, mas não gera riqueza

Melhora da produção científica brasileira não se transforma em inovação produtiva ou em mais competitividade

O Brasil ainda não aprendeu a transformar ciência em riqueza. Apesar da melhora nos indicadores de ciência e tecnologia do país, governo e setor privado concordam que ela não significou avanço similar na competitividade e capacidade de inovação do setor produtivo.

Por um lado, o Brasil se tornou "maior" no mundo científico. Saíram daqui 1,8% dos artigos indexados em revistas científicas internacionais em 2005. Não é um número impressionante, mas a participação brasileira era de apenas 0,6% no início dos anos 90. Hoje, os trabalhos com origem no país representam aproximadamente de 44,4% de toda a produção latino-americana.
O cenário é parecido na formação de recursos humanos para as atividades de pesquisa. Em 2005, as universidades brasileiras formaram 10,6 mil doutores. Número 12% maior do que os 9.500 de 2004 e que tem crescido a taxas parecidas há alguns anos.

Em termos de recursos investidos no setor, o quadro não é tão róseo. Eles subiram em todos os anos desde 2000, mas apenas em termos nominais. Como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) chegaram a cair. De 1,43% em 2000 para 1,37% em 2005 segundo estimativa preliminar do Ministério da Ciência e Tecnologia. O que não deixa de ser positivo, dado que em todo o período o setor público realizou cortes significativos de gastos para alcançar superávits fiscais cada vez maiores.

Na hora de tentar medir o quanto esses investimentos têm tornado a economia brasileira mais produtiva e, portanto, mais competitiva, o quadro muda. É difícil medir a eficácia ou o resultado prático dos gastos de um país em ciência e tecnologia. Em todo o mundo, no entanto, analistas e cientistas concordam que a solicitação e registro de patentes é um bom indicador indireto de quanto o conhecimento gerado por governo e empresas está se transformando em inovações tecnológicas -ou seja, em novos produtos ou processos produtivos.
Nesse caso, o desempenho brasileiro não é nada bom. No ano passado, mostra relatório da Wipo (sigla em inglês para Organização Mundial de Propriedade Intelectual), apenas 283 patentes foram solicitadas por empresas, pessoas ou instituições do Brasil. Os números ainda são provisórios, mas o quadro não muda.

Para ter uma idéia do desempenho brasileiro, o número de patentes solicitadas por aqui é de pouco menos de um oitavo das 2.492 patentes solicitadas pela holandesa Philips, a empresa que mais patenteou no mundo. Há 34 empresas que, individualmente, solicitaram mais patentes do que todo o Brasil.
Mais: as patentes brasileiras representam 0,2% do total de patentes registradas no ano passado e, mostra relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), quase 40% delas são solicitadas por empresas ou instituições estrangeiras -associadas ou não com brasileiras- atuando no território nacional. No caso do Japão e da Coréia, por exemplo, essa proporção varia de 3% a 4%.

As estatísticas sugerem o diagnóstico que tanto governo quanto setor privado brasileiro, com ligeiras diferenças, fazem para o Brasil: falta fazer a ciência chegar dentro das empresas.

O ministro Sergio Rezende (Ciência e Tecnologia) enumera os motivos que, na avaliação dele, tornam o esforço científico tão distante do setor produtivo:
1) o Brasil forma pesquisadores há apenas 40 anos e, portanto, é natural que um sistema jovem como o brasileiro forme pesquisadores para a academia;

2) a industrialização tardia brasileira criou um empresariado conservador, sem a visão de que é necessário fazer pesquisa; falta ao empresariado nacional a cultura da inovação;

3) no governo, as políticas de industrialização e de desenvolvimento científicos não se comunicavam e, portanto, não existiam mecanismos para incentivar as atividades de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

"Mas a boa notícia é que as empresas despertaram. Os centros universitários também. Há 20 anos, a universidade estava fechada. Em alguns ambientes havia muito preconceito quando o pesquisador ia montar uma empresa. A mentalidade era que ele deixava uma atividade nobre para ganhar dinheiro", diz Rezende.

Poucas empresas fazem inovação tecnológica

Entre 2001 e 2003, só um terço das indústrias melhorou o processo produtivo ou lançou novo produto, diz IBGE

Apenas um terço das empresas industriais fez alguma inovação -como melhorar processo produtivo ou lançar um novo produto- entre 2001 e 2003, mostra pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A proporção de empresas do setor que dizia ter feito inovações era de 31,5% no período 1998-2000. Ou seja, apenas um terço das empresas industriais fez alguma inovação durante os dois períodos. E o conceito de inovação adotado pelo IBGE é bastante amplo, lembra Ronald Martin Dauscha, presidente da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras).

Empresários e governo concordam: falta inovação ao setor produtivo brasileiro. Dauscha diz que a taxa deveria ser de no mínimo 40%, ainda assim considerando um conceito mais restrito do que é inovar.

O diretor da Anpei tem um diagnóstico para a falta de apetite inovador do setor privado brasileiro -diagnóstico um pouco diferente do de Sergio Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia. Ele lembra do processo de industrialização do país. "Que nunca ocorreu com ênfase na inovação." E enumera outros fatores:

1) o panorama macroeconômico confuso pré-estabilização, que fazia com que os planos empresariais girassem sempre em torno das necessidades de curto prazo;

2) a falta de uma estratégia nacional de inovação;

3) e a ausência de uma cultura de inovação empresarial, que faz com que tanto pessoas do setor acadêmico quanto no setor privado encarem a empresa "como uma máquina". "Aqui existiu sempre a noção de que quem faz pesquisa são os centros especializados e as universidades."

Noção errada, mostra Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) em artigo sobre a relação entre pesquisa, empresas e universidades no Brasil. "Menos de 10% dos novos produtos ou processos introduzidos por empresas nos EUA tiveram contribuição essencial e imediata de pesquisas acadêmicas", escreve ele, citando pesquisador da Universidade da Pensilvânia.

Assim, diz Brito Cruz, a pesquisa aplicada e o desenvolvimento que levam à inovação tecnológica e ao aumento da competitividade precisam ocorrer dentro das empresas. A pesquisa acadêmica não perde importância. As universidades precisam criar quadros eficientes para as próprias empresas, mas a natureza da pesquisa feita pelas universidades e pelas empresas é distinta, conclui.

Há consenso, portanto, em torno da avaliação de que as empresas brasileiras precisam investir mais em pesquisa e desenvolvimento. José Ricardo Roriz, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, enumera as razões apontadas pelos próprios industriais para o baixo gasto em P&D:

1) custos elevados da inovação, tanto por conta do custo alto de financiamento ou mesmo a falta dele, quanto por conta do risco econômico relativamente maior em relação a outros países;

2) falta de pessoal qualificado;

3) falta de acesso à informação sobre novas tecnologias e

4) pouca informação sobre os mercados a serem explorados.

Melhoras

O Brasil, dizem ministro e representantes do setor privado, tomou medidas para aumentar as atividades de pesquisa e desenvolvimento das empresas e, por meio delas, elevar a competitividade da economia. Mas o país tem melhorado muito devagar quando a comparação é com os demais países desenvolvidos, ou mesmo com as economias emergentes que conseguiram com algum sucesso criar um setor produtivo.

Todos os analistas apontam para a Coréia, que contava, em 1978, com cerca de 40 centros de pesquisa e desenvolvimento em empresas privadas. O número saltou para 10 mil em 2003. Economia que emplacava número insignificante de artigos científicos nos anos 80, a Coréia ultrapassou o Brasil em 1995. Em 2004, os coreanos publicaram 50% a mais do que os brasileiros.

O país também está entre os que mais solicitam patentes no mundo. Mais: o número de solicitações cresce anualmente a uma taxa de mais de 30%, e eles já responderam por 3,5% de todas as solicitações em 2005.
"Os coreanos perceberam que precisavam incentivar todas as empresas a inovar. Criaram mecanismos para levar a pesquisa para as pequenas e médias empresas. Não adianta as grandes avançarem se o resto da economia não evolui", diz Ronald Martin Dauscha, da Anpei.

No Brasil, dizem analistas e empresários, a nova lei de inovação, novas linhas de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a preocupação cada vez maior sobre a necessidade de investir em P&D indicam que há sinais claros de avanço, mas lento dada ao mau desempenho brasileiro no quadro mundial. "Nossos concorrentes têm avançado muito mais rápido do que nós", diz José Ricardo Roriz, da Fiesp.

Ninguém descarta a participação do governo no processo, ainda que o objetivo seja levar as empresas a investirem. Algo, aliás, que ocorre em todo o mundo, dizem os especialistas em sistemas nacionais de inovação. Mesmo nos EUA, 15% dos gastos das empresas com inovação são financiados com recursos públicos.
"A nossa expectativa é que, à medida que o setor público incentive, as empresas passem a colocar mais recursos [nas atividades de P&D]", diz Sergio Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia.
No setor privado, a cobrança é para que as novas leis e medidas saiam do papel. "E tem que ser rápido. O Brasil tem que acordar para a inovação", conclui Roriz.


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