SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 08/05/2006
Autor: Anna Regina Tomicioli
Fonte: Jornal A Cidade

O sofrimento das micros e pequenas empresas no Brasil

Segundo levantamento do Sebrae, as micros e pequenas respondem por 99% do número de empresas no Brasil e empregam 67% da mão-de-obra

Há quase trinta e cinco anos, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) trabalha pelo desenvolvimento sustentável das empresas de pequeno porte. Uma tarefa árdua e até contraditória, em um país onde o sistema empresarial é voltado para empresas de grande porte, como critica o diretor-superintendente do Sebrae, José Luiz Ricca, engenheiro industrial com especialização em gestão humana, desenvolvimento empresarial e balanço social.

Segundo levantamento do Sebrae, as micros e pequenas respondem por 99% do número de empresas no Brasil e empregam 67% da mão-de-obra. "No entanto, não existe nenhum tipo de tratamento específico para a pequena empresa", critica.

Ricca é também membro do Cietec (Conselho do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas) e da Fides (Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social).

Já exerceu, entre outras funções, a de secretário de Relações do Trabalho no Ministério do Trabalho, secretário de Estado e secretário-adjunto do Emprego e Relações do Trabalho de São Paulo.

Nesta entrevista, ela fala sobre os problemas e desafios enfrentados pelas pequenas empresas e garante: as micros e pequenas têm condições de competir com as grandes.

Qual a situação da pequena empresa hoje no Brasil?

Na realidade, a micro e a pequena empresa sofre de todo um processo de falta de um cuidado maior por parte das autoridades. O país todo vive em função das micros e pequenas empresa porque na realidade hoje elas representam 99% do número de empresas, empregam 67% da mão-de-obra, elas já representam 20% do PIB, apenas 2% do número no número de empresas que exportam. Além disso, elas têm uma característica importante que é a sua flexibilidade, elas reagem muito rapidamente às transformações e às mudanças. No entanto, não existe nenhum tipo de tratamento específico para a pequena empresa. Toda a nossa legislação, todos os nossos regulamentos, enfim, toda a nossa visão de arcabouço empresarial é voltado para a grande empresa. Então a pequena empresa sofre de uma maneira extremamente grande e carece de duas questões: é vítima da burocracia e é vitima do imposto alto. A tributação, além de numerosa e adversa, é muito alta. Isso nos leva a um outro tipo de questão, que é o absurdo de que para cada empresa formal no país, existam duas empresas não formalizadas. Então nós estamos frente a uma grande mentira. Ou seja, nós vivemos uma mentira hoje nós fingimos que temos apenas um terço das empresas que temos e no entanto convivemos com uma informalidade inaceitável. Este é um ponto da realidade. O outro ponto é que esse quadro todo nos remete a um índice de mortalidade extremamente significativo, onde você tem depois de cinco anos de existência, apenas 44% das empresas sobreviveram. A mortalidade das empresas é de 56%. Esse índice já foi maior, já baixou, há dois anos era 60% e baixou para 56%, mas mesmo assim é escandalosamente grande e é algo inaceitável. Então, isso nos remete a algumas questões. Primeiro, desse cenário adverso ao pequeno emprego e depois, a questão da falta de preparação do empresário.

O pequeno empresário é muito mal preparado?

Na realidade, o que acontece é que o mundo se transformou, especialmente nestes últimos dez anos. E o que está acontecendo é que você tem menos da metade da PEA (população economicamente ativa) com emprego formal. No entanto, a nossa legislação trabalhista só serve para menos da metade da população. E o resto da população o que faz? De alguma forma, ela pega o seu dinheirinho e emprega em alguma coisa que ela sabe fazer e vai tentar se empreendedor. Ao ser empreendedora, ela consegue fazer coisas que ela já sabe fazer. No entanto, ela muita vezes não sabe comprar, ela não sabe vender, não sabe calcular custo, não sabe fazer fluxo de caixa, ela não tem visão de mercado, não tem visão financeira de crédito, ela não tem uma visão de que tipo de coisa ela pode fazer para montar a sua tecnologia. Enfim, a pessoa entra única e exclusivamente com o seu conhecimento de saber fazer alguma coisa. No entanto, isso só não basta. É preciso que as pessoas se preparem para poder ser empreendedores. Planejem, estudem o mercado, vejam toda a situação e façam o planejamento básico para poder sobreviver. Então, acho que é fundamental que eles (os empresários) se preparem para isso. E muitas vezes ele entra no negócio com a cara e a coragem e muitas vezes sem esta visão globalizada. E aí o Sebrae pode ajudar bastante. É uma das entidades que podem prestar uma colaboração grande em toda essa questão de planejamento, gestão, de finanças, de mercado. Tudo aquilo que o empreendedor precisa o Sebrae está à disposição para pode colaborar com ele.

Diante desta realidade, dá para as micros e pequenas empresas hoje serem competitivas com as grandes?

Não só dá como é a grande solução. Porque a pequena empresa tem algumas vantagens muito importantes. Primeiro, que elas são estabilizadas. Se elas não morrem, elas ficam no mercado e elas inclusive se estabilizam demais. Aquelas 67% de pessoas que elas empregas são pessoas que efetivamente elas não demitem. Cada pequena empresa trabalha com 4,4 pessoas em média. Então, é o dono ou a mulher do dono, o filho do dono. Então, isso cria um conhecimento específico. O que a empresa vai fazer com esta produtividade que nós temos incentivado? São duas coisas: que a pequena empresa comece a melhorar a sua qualidade naquilo que faz. Isso depois dela conseguir fazer todo o planejamento, fazer todas aquelas fases a que eu me referi. E mais: tem que se unir. Tem que fazer uma operação, uma associação de pequenos empregos para que elas produzam coisas em conjunto, para fornecer melhor para a grande empresa, entrando na cadeia produtiva de uma maneira organizada. Esse é o grande desafio que nós temos daqui para frente. É como é que você pega as pequenas empresas, organiza essas empresas em conjuntos pequenos para poder colaborar com as grandes, formar as cadeias produtivas para poder, não só atender o mercado interno com qualidade e competitividade de preço e também o mercado externo para poder inclusive ou colocar componentes que elas fabricam ou serviços que elas prestam junto a grandes empresas exportadoras ou elas mesmos se unirem e exportarem diretamente. Então, este é o grande desafio que nós temos hoje para fazer. E para isso, a pequena empresa este bem de vantagens. Ela é rápida, ela não é pesada, ela se adapta muito rapidamente, e ela mexe com a sua condição de uma maneira muito veloz. Depois disto tudo, vem uma terceira questão. Nós falamos da questão do cenário, sobre a preparação e agora temos que falar da questão da inovação tecnológica. A pequena empresa precisa acordar agora para poder olhar o mercado como um mercado competitivo e precisa se modernizar. E o que significa se modernizar para a pequena empresa? Significa ela se informatizar, ela usar mais os mecanismos eletrônicos, ela entrar no universo da Internet, fazer a sua página, usar estes mecanismos de inovação tecnológica além de absorver tecnologia nos seus produtos, serviços ou ações que elas desenvolvem, como design, automações pequenas que elas podem ter. A inovação tecnológica hoje é uma coisa muito mais próxima da pequena empresa do que era antigamente. Ela pode realmente ter toda uma visão, conseguir enxergar tudo aquilo que ela precisa, inclusive os incentivos que os órgãos governamentais vêm dando, especialmente linhas específicas de crédito que o BNDES está soltando para a questão de inovação tecnológica voltadas para a pequena empresa.

O que você apontaria como os grandes vilões da micro e pequena empresa hoje?

Sem dúvida essa legislação adversa. E é por isso que nós estamos fazendo um empenho muito grande para a aprovação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa. Ela está no Congresso Nacional pronta para ser aprovada e nós não entendemos porque ela não está sendo votada. Ela está parada, pronta e emendada, já aprovada pelas comissões todas, e a coisa não anda. Então, perde o país, perdem os estados, perdem os municípios e perde o pequeno empresário que continua sem poder se formalizar, que continua pagando imposto demais, que continua com burocracia demais. A Lei Geral vem resolver os três grandes problemas: a questão da burocracia, a questão de toda a tributação e a questão da inovação tecnológica. Ela responde a isso tudo de uma maneira muito dinâmica e muito prática. E é uma lei que foi construída em três anos, discutida por toda a sociedade, uma construção coletiva, o Sebrae se esforçou muito para pode colocar isso de uma maneira aberta para todo mundo. Então, eu acho que nós estamos perdendo uma oportunidade de sair desta condição de paralisia da pequena empresa. Nós estamos perdendo uma oportunidade ímpar. A Itália já fez há mais de 30 anos, a Alemanha já fez há mais de 20 (anos), os Estados Unidos fizeram há mais de 50 (anos), a Inglaterra fez desde sempre. Então, nós não podemos continuar esperando. A Lei Geral está pronta, prontinha, com tudo discutido há três anos, o Brasil inteiro discutiu, o Ministério da Fazenda discutiu, a área econômica do governo discutiu, já houve emenda. Está tudo pronto para ser votado. Então, é isto que atrapalha a pequena empresa, esta indefinição. E nós não podemos continuar deste jeito.

Na região, a maior parte das grandes empresas está ligada ao agronegócio. Essa realidade também se reflete nas empresas menores?

Não, não, isso é variado. Inclusive aqui você tem uma gama muito grande de empresas que têm já uma vocação tecnológica em função do pólo de saúde que tem aqui. É uma coisa impressionante isso. Agora o importante disso é o seguinte. A grande empresa não emprega mais hoje. Ela tem outro tipo de ação, mas ela é fundamental porque ela traz a tecnologia, ela vem robotizada, ela vem com todo um esquema moderno de processos e ao vir assim ela deixa de fazer uma série de coisas que ela precisa que sejam feitas. Ela tem que ter vigilância, ela tem que ter comunicação, ela tem que ter toda uma série de serviços prestados e ela tem que ter muitos componentes que para ela não interessa produzir. E ao vir uma grande empresa ela traz tecnologia, vem com toda essa nova mentalidade, mas ela carrega diante de sua vinda uma enorme oportunidade de pequenas empresas se instalarem no seu redor e criar uma cadeia produtiva para servi-la. Além de você poder criar uma outra onda. À medida que existem o desenvolvimento e as funções, principalmente em pólos grandes como aqui em Ribeirão, você cria o turismo de negócios, você cria outras formas de necessidade de representação que movimentam toda a economia de serviços. E a área de serviços ela é especialmente muito apropriada para os pequenos negócios.


Destaques da Loja Virtual
MARKETING NA ERA DO NEXO

Um livro realista nas análises, corajoso nas abordagens e surpreendente nas propostas que repassa ao leitor. Um guia prático de marketing para fazer p...

R$20,00