SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 24/05/2006
Autor: Site Empreendedor
Fonte: João Amato Neto

Os verdadeiros desafios dos pequenos

No atual contexto de reestruturação industrial, estamos assistindo a convergência de dois tipos de fenômenos distintos e ao mesmo tempo complementares: uma sensível mudança nas relações interorganizacionais, principalmente das micro, pequenas e médias empresas (MPME's), voltadas para maior cooperação em várias atividades (redes de cooperação produtiva); e a formação de aglomerados de empresas em uma dada localidade ou região (chamados de clusters regionais ou arranjos produtivos locais).

As políticas públicas focalizadas na promoção destes arranjos e redes se mostram imprescindíveis aos países em desenvolvimento como o Brasil, onde 52,8% da força de trabalho estão nas micro e pequenas empresas. Estas, por seu turno, apresentam, segundo dados do SEBRAE, uma elevada taxa de mortalidade. Cerca de 39% somente no primeiro ano de atividade.

O debate em torno do fenômeno das aglomerações de empresas e, em particular, a emergência dos chamados arranjos cooperativos locais, no cenário da reestruturação industrial deste início de milênio, devem ser abordadas sob um contexto mais amplo, onde significativas mudanças, tanto de ordem técnica-econômica como também socioinstitucional, vêm ocorrendo recentemente nas sociedades contemporâneas. Tais mudanças podem estar associadas a uma transição de um conjunto de paradigmas, em especial ao de produção industrial.

A proximidade geográfica de produtores de uma mesma cadeia produtiva pode, em muitos casos, facilitar a geração e a difusão de conhecimentos relevantes para a ocorrência das eficiências coletivas (e não apenas as eficiências individuais dos atores econômicos). O que pode, também, gerar impactos positivos no processo de desenvolvimento auto-sustentado de um dado local e de uma região.

A existência de universidades, escolas técnicas e centros/institutos de pesquisa proporcionam maior acesso ao conhecimento diferenciado de base científica e tecnológica. Desta forma, pode-se vislumbrar para as empresas de menor porte uma série de vantagens derivadas dessas aglomerações e das interações interorganizacionais, referentes, principalmente, à possibilidade de difusão de conhecimentos tácitos devido à proximidade espacial entre os agentes.

Logicamente que essas possibilidades dependem do contexto social e de como as instituições presentes em uma localidade interagem. Tal conhecimento tácito permite, como bem observou o economista Alfred Marshall há mais de meio século, que os segredos das empresas deixem de ser segredos e acabem pairando no ar, de modo que até as crianças possam aprender inconscientemente. A clássica frase destaca a facilidade do processo de circulação de informações no interior de um dado cluster de empresas por meio de canais próprios de comunicação ou fontes especializadas, podendo provocar um transbordamento de tecnologia e de conhecimento, fenômeno este conhecido na literatura por spillover tecnológico.

No caso brasileiro, ainda que não se encontrem no mesmo nível dos distritos industriais das regiões da chamada Terceira Itália (Emiglia-Romana, Lombardia e Vêneto), identificamos alguns exemplos destas aglomerações de sucesso: Vale dos Sinos, produtor de calçados femininos no Rio Grande do Sul e o de cerâmica de revestimento em Santa Catarina. Já no Estado de São Paulo, merecem destaque os clusters couro-calçadistas em Franca, Jaú e Birigui, o de móveis em Votuporanga, e o de cerâmica de revestimento de Porto Ferreira e o de Santa Gertrudes.

O fenômeno das aglomerações de empresas e das redes de cooperação interorganizacionais de MPME's nos faz refletir sobre as reais possibilidades da formação de arranjos cooperativos para inovação e produção: parecem se constituir em verdadeiros desafios, sob uma nova perspectiva de desenvolvimento sócio-econômico de regiões e nações.

A falta de maior grau de confiança e de canais de comunicação eficazes entre as diferentes categorias de agentes, que devem compor tais arranjos, são os principais obstáculos que se apresentam no seio deste desafio. De forma mais objetiva, vale dizer que os maiores desafios se encontram nas fronteiras entre as ciências básicas, ciências aplicadas/ tecnologia, indústria e mercado.

João Amato Neto é professor livre-docente do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, coordenador do núcleo de pesquisa Redes de Cooperação e Gestão do Conhecimento' e consultor da Fundação Vanzolini.


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