SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 01/06/2006
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

Projetos para o futuro

Embora já tenham constatado que responsabilidade social pode ser um bom negócio, muitas empresas acabam perdendo o foco quando deixam de mensurar o alcance de suas ações junto aos diversos públicos. O alerta está no trabalho de conclusão de curso de Adriana Guazzelli Charoux na Faculdade de Relações Públicas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). O tema valeu a Adriana o Prêmio Ethos-Valor - PEV 2006, na categoria graduação, com o trabalho "A Ação Social das Empresas. Quem Ganha com Isso?" Ficar atento às questões sociais como forma de diminuir riscos e monitorar incertezas num mundo globalizado também foi assunto de Sidarta Ruthes, que levou o PEV 2006 na categoria pós-graduação, com o trabalho "A Inteligência Competitiva e a Prospecção Tecnológica e Estratégica como Suporte ao Desenvolvimento Sustentável".

Concluída a graduação em administração, na Universidade Federal de Santa Maria (RS), Ruthes partiu para o mestrado em tecnologia, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde se concentrou na vocação regional de pequenos e médios pólos produtivos. "Empresas com o mesmo foco produtivo têm vantagens como sinergia, cooperação e mão-de-obra especializada, mas justamente por isso têm também um caráter de fragilidade", diz Ruthes. "Esse cenário já ocorreu nos anos 1990, quando produtos têxteis e calçados asiáticos invadiram o país, impuseram uma concorrência insuportável e centenas de pequenas empresas reunidas em pólos industriais acabaram quebrando".

Para que não sejam pegas de surpresa, Ruthes propõe às empresas o que chama de inteligência competitiva, um modelo de gestão que vigia as novas tendências econômicas, tecnológicas e de meio ambiente. "É uma ferramenta de inteligência que baliza a tomada de decisão nos pólos produtivos", explica. Essa nova ordem, que Ruthes trata como "Prospectiva Tecnológica", é uma tentativa de construir o futuro, para que as empresas e a comunidade se protejam das intempéries que vêm com a globalização. "A Escola Prospectiva não acredita em destino", resume Ruthes. "Somos agentes do nosso futuro; é só prestar atenção aos sinais que os fatos enviam antes mesmo de acontecerem."

As ações das empresas no campo social poderiam ser motivo de crescimento e transformação social. Poderiam, segundo a conclusão do trabalho de Adriana Charoux, mas nem sempre o são. "Muitas empresas investem muito mais na divulgação de suas ações sociais do que nas próprias ações", diz Adriana, com base em pesquisas e entrevistas com representantes de empresas. Para saber em que medida o burburinho que as empresas fazem contribui de verdade para a transformação social, Adriana entrevistou responsáveis pelo setor social de onze empresas.

"Poucas empresas fazem o bem, mas aquelas que o fazem, o fazem muito bem porque têm ferramentas de avaliação", diz ela. "A sociedade ainda está ganhando pouco em relação ao estardalhaço que se ouve".

Adriana atribui essa situação à falta de um estudo mais aprofundado que avalie as ações. "Não bastam indicadores; é necessário comprovar se essas ações são benéficas, se atendem à comunidade a que são dirigidas". A saída, diz ela, é os empresários ouvirem mais, destacarem profissionais que sirvam de ponte entre a empresa e o chão da fábrica e, por extensão, que se comuniquem também com o entorno para saber verdadeiramente o que a comunidade quer e precisa. "Raramente as empresas dão voz a todos os públicos."

O trabalho de Sidarta Ruthes segue na mesma linha de preocupação com o social da tese de Adriana, mas por outros caminhos. Ele sugere o emprego da inteligência competitiva e a prospecção tecnológica e estratégica para o que chama de APLs (Arranjos Produtivos Locais), justamente os pólos onde dezenas de pequenas empresas estão reunidas com o mesmo foco produtivo. Para evitar surpresas que possam desestabilizar o sistema produtivo e, por conseqüência, a comunidade inteira, Ruthes diz que vários cenários podem ser construídos - desde o mais pessimista até o mais moderado.

"Os cenários construídos devem ser confrontados com a realidade para que as ações, então, sejam aplicadas", diz. "Entender o comportamento das variáveis é fundamental para manter a sustentabilidade das APLs". Esse sistema de produção a que Ruthes se refere se multiplica pelo Sul e Sudeste do país. Em Santa Catarina, os produtores e criadores de frango são o maior exemplo. "Prospectiva tecnológica é tudo o que esses produtores precisam em tempos de turbulência globalizada, como a gripe aviária, por exemplo, que pode contaminar todas as empresas em curtíssimo espaço de tempo", diz ele.

Ruthes lamenta que a prospectiva estratégica, da qual o teórico francês Michel Godet é o maior representante, não seja muito difundida no Brasil. "É raro encontrar empresários brasileiros que tenham a cultura de pensar no longo prazo", diz. As APLs, para ele, são o maior exemplo de sistema com um lado muito vulnerável, que precisa desenvolver estratégias e tomar medidas quando ainda não está ameaçado. "A receita é preparar-se para não desestabilizar o sistema e continuar sustentável", diz.

Para tanto, Ruthes recomenda maior conhecimento entre os empresários, além de ferramentas de gestão aplicada e uma maior aproximação entre a empresa e a universidade. "Estar atento às variáveis é fundamental", diz Ruthes, que trabalha atualmente na FIEP (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), de onde oferece consultoria aos empresários interessados em se prevenir da desestabilização do sistema.

O alerta aos empresários contido no trabalho de Ruthes, enfim, é de mensuração de riscos e antecipação de ações. "A empresa não pode acreditar em destino; precisa construir o futuro", diz. A mensuração das ações das empresas em benefício dos variados públicos também permeia o trabalho de Adriana sobre quem verdadeiramente ganha com as ações sociais. "As empresas precisam incorporar a quarta visão às suas ações, que é exatamente fazer com que a responsabilidade social seja cultura e não apenas diferencial competitivo", diz Adriana. "Essa quarta visão é muita mais profunda; é quando a responsabilidade social deixa o discurso e se transforma em prática".

Para marcar essa quarta visão, Adriana explica as três primeiras, que diferenciam as empresas que apenas cumprem a lei das que passaram para a segunda visão, com ações sociais pontuais e filantrópicas. A terceira visão reúne empresas que ainda estão na dúvida se a responsabilidade social faz bem para o negócio. "Os empresários que estão na quarta visão adotam a responsabilidade social olhando para todos os públicos com uma política integrada e ferramentas de avaliação".

O trabalho de Adriana conclui que o empresariado, em sua maioria, ainda investe pouco e investe mal em ações sociais. "Está mais preocupado com o patrocínio do megashow porque sabe que terá mais visibilidade do que se oferecesse um sopão na favela; mas esquece que assim não fará a verdadeira transformação social", diz Adriana. Além disso, ela mostra no trabalho que falta foco às ações sociais das empresas. "Faltam decisões firmes sobre o que fazer com as verbas", diz. "As dez principais empresas-modelo de responsabilidade social investem juntas cerca de 0,5% do faturamento bruto no social; é pouco se se comparar com o que gasta em segurança patrimonial de seus executivos".

Adriana conclui que as empresas estão lucrando muito mais com o discurso da responsabilidade social do que os beneficiários, o público-alvo das ações sociais privadas. "Neste movimento, o Estado se enfraquece ainda mais e as chances de universalização, também. Daí a grande motivação de meu trabalho: contextualizar o movimento da RSE e tentar entender os usos do discurso socialmente responsável".

O Prêmio Ethos-Valor premiou os vencedores da 6ª edição na noite de terça-feira, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Foram apresentados os nove finalistas - cinco da graduação e quatro da pós-graduação selecionados nas cinco regiões brasileiras. O PEV é uma iniciativa do Instituto Ethos em parceria com o jornal Valor Econômico. Entre seus patrocinadores, o PEV conta com o Banco do Brasil, DPaschoal, Instituto Unibanco e Serasa. Conta ainda com o apoio do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), Consultec, Fundação Educar, Ministério da Educação, Consultoria Neurônio, Rede Social e Sesc São Paulo.

Tal como acontece em todas as edições, o PEV-2006 terá os trabalhos vencedores reunidos numa edição exclusiva da Editora Peirópolis, que se inclui entre os apoiadores do prêmio. Na noite da premiação, a Peirópolis lançou a publicação com os trabalhos finalistas do PEV-2005. Os finalistas da edição do PEV-2006 estarão no livro que a Peirópolis lançará em 2007.

Desde a primeira edição, em 2001, o PEV registrou cerca de 1.600 trabalhos dedicados aos temas da responsabilidade social. No PEV-2006, o foco foi o desenvolvimento sustentável aplicado às empresas, tema que mobilizou 130 universidades, 233 professores, 400 graduados e pós-graduados que produziram 294 trabalhos. No início da premiação, Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, passou um recado aos jovens finalistas: "A sustentabilidade é a continuidade da espécie humana; na trajetória da responsabilidade social, da ética, se encontram as melhores pessoas, com visões de mundo muito parecidas".

O presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, aproveitou o tema da ética, para provocar a comunidade acadêmica no sentido de se manifestar e marcar presença diante das situações de corrupção. "A universidade pode ser uma trincheira contra o avanço dessa endemia", disse.


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