SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 26/06/2006
Autor: Karina Di Nubila
Fonte: Jornal do Commércio

O estresse preocupa as empresas

Evitar estafa mental dos funcionários é desafio para gestores

Causador de desmotivação, baixo rendimento no trabalho e até doenças, o estresse é motivo de preocupação para muitos gestores de equipes e executivos de recursos humanos (RH). A competitividade atual do mundo corporativo é considerada a principal causa do estresse, segundo Anderson de Souza Sant"Anna, professor de comportamento organizacional da Fundação Dom Cabral, autor da pesquisa "Fatores de pressão e satisfação no trabalho", na qual analisou profissionais de áreas de atendimento ao público. Buscando se manter no mercado, os profissionais costumam trabalhar sob pressão, assumir alto nível de responsabilidade e exceder a carga horária normal de trabalho. O desafio, para as empresas, é administrar as pressões para evitar o excesso, em função das características de cada funcionário.

O estresse vem quando o indivíduo chega ao seu limite e desenvolve doenças. Para Sant"Anna, as organizações têm papel importante na hora de administrar o estresse de seus funcionários, que, por si só, não é considerado patológico. A insegurança em relação ao futuro e a necessidade de se manter sempre informado, seguido dos enxugamentos orçamentais e da concentração de tarefas num só empregado, são os principais fatores do mundo corporativo que contribuem para a proliferação do estresse.

O problema, porém, está no excesso. O estresse é um mecanismo natural do ser humano, extremamente importante em seu dia-a-dia, que se torna prejudicial à saúde apenas quando atinge grau elevado de intensidade, mas, em níveis equilibrados, deve sempre existir na carreira de um indivíduo. Baseado nestes prismas, o estresse é um mecanismo que avisa o profissional quando ele está passando do seu limite, está desenvolvendo uma alta carga de trabalho. Logo, segundo Sant`Anna, o estresse se mantém acionado quase que o tempo inteiro. Portanto, o corpo fala, mostra que está realizando atividades em excesso e após estas tarefas não costuma voltar ao normal. É um sintoma contínuo, vai debilitando aos poucos os profissionais, abrindo espaço para doenças como hipertensão e diabete se manifestarem.

Detectar a causa, ao invés de combater o sintoma

"A área de RH das empresas tem que estar atenta aos casos em que o estresse causa danos à saúde. Combater o sintoma é impossível. Detectar o foco da epidemia e tentar preveni-lo, sim, faz parte da realidade dos departamentos de gestão de pessoas. Criar ferramentas e tentar implementá-las junto aos colaboradores é a alternativa certa a se tomar. Entretanto, as empresas só costumam atuar quando o problema já se instalou. Não agem em instâncias mais estruturais, administrando os fatores causadores do estresse. As campanhas são importantes, mas já é possível ir além destas proporções", observa Sant"Anna.

"A capacidade de trabalhar sob pressão costuma variar de profissional para profissional, dependendo do nível de exigência requerido por cada função dentro das organizações", afirma Enio Vieira, gerente de RH do Banco Nossa Caixa. Quando um empregado assume cargo incompatível com o seu perfil, gera-se grau de cobrança elevado para as suas capacidades físicas e mentais, ocasionando o estresse negativo. A área de RH do Banco Nossa Caixa se utiliza de alguns parâmetros básicos para assegurar a perfeita adequação entre as habilidades e aptidões requeridas pelas posições e o perfil do candidato ao cargo.

"Os pré-requisitos especificados nas análises descritivas dos cargos se somam às competências funcionais e corporativas, assim como ao detalhamento prévio do perfil do profissional desejado. Ferramentas seletivas tradicionais, tais como testes psicológicos e dinâmicas de grupo se associam a entrevistas técnicas, entrevistas por eventos comportamentais ou por competências. As análises descritivas de cargo são ferramentas que contribuem bastante na definição de vivências, conhecimentos e habilidades requeridas dos futuros ocupantes de posições a serem preenchidas", estabelece Vieira.

Para Paulo Amorim, diretor de RH da fabricante de computadores Dell para o Mercosul, através de uma ferramenta eficaz como o sistema de competências, a empresa consegue identificar o empregado ideal para aquela função, tanto no mercado de trabalho como no ambiente interno da empresa. Promover ou contratar funcionário que não está devidamente preparado também pode causar estresse negativo.

Alguns profissionais lidam melhor com o excesso de cobrança, outros não. Na hora de promover um funcionário, ter esquematizado as habilidades e o perfil exigidos para aquele cargo facilita na adequação do melhor candidato. A redução do estresse no trabalho, por meio de uma adequação entre o perfil e a função do profissional, melhora o ambiente na empresa e aumenta a produtividade da organização.

"No momento inicial, durante a captação do executivo no mercado de trabalho, a área de RH da empresa tem que identificar se o perfil e as qualidades do profissional se adéquam ao cargo. Depois que o profissional está dentro da organização, o RH continua agindo em parceria com os gestores das equipes. Quanto mais a companhia puder ajudar, criando ferramentas que melhorem o clima interno da empresa e a qualidade de vida dos seus empregados, estará trabalhando para melhorar o rendimento de todos", ratifica Amorim.

Algumas empresas como a Brasil Telecom fazem campanhas internas de incentivo à saúde, estimulando os empregados a realizarem ginástica laboral durante o trabalho. A Brasil Telecom possui 6 mil trabalhadores distribuídos em diversas regiões do País. A pressão por resultados na empresa é diária, ainda mais diante da alta competitividade do mercado de telecomunicações. Para suportar o nível de cobrança, a empresa desenvolve programas alternativos visando a ajudar o colaborador a ter uma vida mais centrada, equilibrada do lado pessoal e profissional. As ações são benéficas e não param neste estágio, pontua Eléu Magno Baccon, diretor de Operações de RH da Brasil Telecom.


Rever metas ajuda a reduzir a pressão sobre executivos

Em alguns casos, quando os objetivos a serem alcançados são muito ambiciosos, a Brasil Telecom revê seus planos de meta, segundo Baccon. Não adianta oferecer alimentação balanceada nem academias de ginástica para ajudar a diminuir o estresse, se as metas e cobranças forem muito rígidas. Assim, o foco do problema será encoberto. Por isso, é necessário ir além das campanhas de combate ao estresse, desenvolvendo ações estruturais como rever metas, carga horária e quantidade de trabalho.

"Os funcionários não são máquinas nem devem ser tratados como tal. O mundo corporativo lida com seres humanos, que têm limites que precisam ser respeitados. Além desta cultura organizacional, a Brasil Telecom usa o sistema de banco de horas, que permite ao colaborador dosar a sua permanência dentro da empresa. Possui também mecanismos de avaliação de desempenho que demonstram claramente para o funcionário o papel fundamental que ele tem no desenvolvimento da organização. Com estas ferramentas, a empresa busca o comprometimento do seu empregado", declara Baccon.

Na Golden Cross, ferramentas como pesquisas de clima, gestão de performance e reuniões individuais entre o gestor e o empregado para discutir as metas anuais influenciam na diminuição do estresse dos funcionários, considera Ivan Nahon, gerente de RH da empresa. Nas reuniões individuais, os gestores e os funcionários discutem a viabilidade das metas e traçam prioridades em relação aos seus cumprimentos. A pesquisa de clima é realizada para detectar pontos negativos e atuar nas áreas que estão mais carentes neste sentido.

"Não existe, na prática, botão que desligue o indivíduo dos problemas do trabalho, quando ele está em casa e vice-versa. Portanto, o ambiente de trabalho tem que ser democrático, ético e positivo. Na maioria dos casos, passa-se mais tempo com os colegas de trabalho do que com a família", enfatiza Nahon.


Estilo dos empregados deve ser levado em conta

O estilo de vida do colaborador também favorece doenças oriundas do estresse, conclui o professor Anderson de Souza Sant"Anna, da Fundação Dom Cabral (FDC). Hoje, fala-se muito em metas, desafios, atrair e reter talentos nas empresas, mas já está comprovado que é possível dosar o volume de trabalho, as responsabilidades e os desafios traçados para o empregado desde sua contratação.

Na fabricante de bebidas AmBev, a informalidade dá o tom no comportamento dos empregados, segundo Claudia Elisa, gerente nacional corporativa de desenvolvimento de Gente. Esta informalidade, marcada pela inexistência de paredes ou salas separando as diferentes áreas da companhia, permite que informações sobre as atividades, processos e desafios de cada área circulem de maneira mais ampla por toda a empresa. A comunicação é facilitada e acessível a todos os níveis hierárquicos. Com isto, os funcionários têm mais possibilidade de conhecer diferentes oportunidades, manifestar seu interesse por mudanças no trabalho e efetivamente migrar entre áreas.

Além da informalidade, a empresa oferece um programa chamado "Vida Legal" aos seus colaboradores, cujo objetivo é estimular hábitos saudáveis, desenvolver ações preventivas de saúde e incentivar o tratamento de doenças crônicas entre funcionários e seus familiares. "Acreditamos que essa é uma das maneiras de contribuir com a redução de do estresse no trabalho. A AmBev realiza todos os anos, nos diferentes níveis e unidades de negócio da organização, as chamadas "Reuniões de Gente", nas quais são discutidas, com a presença dos gestores da companhia, os possíveis rumos dos profissionais de cada área, baseando-se no seu desempenho e nos interesses manifestados antes das referidas reuniões", explica Cláudia.

Na avaliação do professor Sant"Anna, as empresas devem considerar a dimensão do estresse como um dos pontos fundamentais quando se fala na sustentabilidade da organização. Os gestores das diferentes equipes devem estar atentos ao desenvolvimento dos seus subordinados, analisando o rendimento e revendo periodicamente os planos de metas individuais. O profissional tem que querer também se ajudar. Não adianta a empresa tentar melhorar a qualidade de vida e o ambiente de trabalho: o profissional precisa buscar mudar o seu estilo de vida ou pelo menos mudar alguns fatores, administrando melhor o seu tempo, equilibrando o trabalho e a vida pessoal.

"Trata-se de uma parceria entre a empresa, os gestores e o empregado. As áreas de RH, ao lado dos gestores das áreas, agem como agentes sensibilizadores, construindo uma cultura baseada na qualidade de vida dos funcionários, disseminando os valores das organizações, buscando conscientizar a massa de empregados do seu papel na empresa e na sociedade", orienta Sant"Anna.


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