SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 27/10/2006
Autor: Luiz Fernando Garcia*
Fonte: Revista Amanhã

Pesquisas apontam: empreendedorismo está ligado à genética

Vivemos em um mundo onde a economia é parte fundamental para qualquer um. E há muito tempo já se sabe que, sem empreendedores, a economia não se desenvolve. O empreendedorismo é o dínamo que move não só o ganho financeiro individual, mas o de todos. Em 1734, Richard Cantillon, no livro Pioneer of Economic Theory, já propunha que "em um sistema de mercado, antes que algo seja finalmente vendido, é necessário que seja fabricado, transportado, estocado e alguém precisa assumir o risco que há nestas operações". Mas quantos de nós estamos dispostos a assumir riscos financeiros? E mais: quem banca a energia para aproveitar, de fato, apenas algumas das inúmeras oportunidades que existem num país em franco desenvolvimento? Quem de nós costuma imaginar cenários futuros com tantos detalhes a ponto de torná-los possíveis?

Os seres humanos são seres bio-psicosociais. Portanto, quase tudo que nos ocorre se apóia num composto de fatores. Em um estudo que realizei para o MEC em 2000, selecionei 72 estudos sobre empreendedores. A maioria deles tinha por objetivo identificar as atitudes e comportamentos de uma pessoa que fazia grande diferença na economia regional da qual participava. Depois, em 2001, realizei uma pesquisa com 1200 entrevistados dos quais selecionei 188 perfis de pessoas que haviam tornado reais grandes empresas e apresentavam um perfil diferenciado em relação a todos os outros. Até aquele momento, foram identificados aspectos de como estas pessoas captam, organizam e projetam as informações. Como se motivam ou por que se motivam e, principalmente, como se comportam. Agora, porém, sabemos mais: um estudo realizado por cientistas britânicos e norte-americanos acompanhou a personalidade empreendedora em 1266 pares de gêmeos. Entre eles havia 609 pares de univitelinos (idênticos geneticamente) e 657 pares de gêmeos não¿idênticos (com metade da semelhança genética). Comparando a condição empreendedora entre gêmeos idênticos e não-idênticos, foi possível identificar a importância dos fatores genéticos. Entre os gêmeos idênticos a taxa de propensão a tornar-se empreendedor é de 48%. A partir daí, se percebeu que quase a metade das possibilidades de um indivíduo se tornar um empreendedor se deve a fatores genéticos. Este estudo abre caminho para prosseguir e identificar os genes específicos envolvidos em ser um empreendedor.

O neurologista Joe Tsien, da Universidade de Princeton, Estados Unidos, alterou o gene batizado de NR2B, no DNA de camundongos (que têm 92% da carga genética igual à da raça humana). Tsien conseguiu modificar a capacidade dos roedores em encontrar soluções para problemas - o que chamaríamos, quando nos referimos a humanos, de memória e inteligência. Em um teste realizado em um labirinto, os camundongos normais levavam, em média, três minutos para encontrar comida. Já os que tiveram o NR2B duplicado precisaram de apenas 42 segundos. E aqueles que tiveram o gene retirado só encontraram a saída depois de nove horas. O gene parece ser parcialmente responsável pela capacidade de sobrevivência em ambientes hostis ou de mudanças bruscas. A hipótese de que empreendedores possuem uma capacidade maior do gene NR2B pode ser levada em conta.

Provavelmente, o aspecto biológico ampara as personalidades realizadoras que conhecemos - que vão de Abílio Diniz à Ivete Sangalo. Mas acredita-se que míseros 3,5% da população apresenta este perfil. Logo, do quê nos serve esta descoberta? Serve para que se possa compreender que é preciso melhorar as condições para quem quer enfrentar desafios e tomar iniciativa. Nas trajetórias das pessoas que compõem esta seleção de notáveis realizadores estão os aprendizados necessários a impulsionar a capacidade de realizar de qualquer pessoa. David McClelland, um dos mais conhecidos estudiosos das motivações humanas, realizou um vasto estudo, solicitado pela Organização das Nações Unidas, justamente para identificar uma forma de melhorar a condição de resultados de pessoas comuns. Este estudo apontou características de comportamento empreendedor, chamadas de CCE. Entre essas características estão a capacidade de identificar de oportunidades de negócio e a iniciativa para aproveitá-las, o comprometimento e a persistência, a visão em longo prazo e o planejamento de ações a curto, médio e longos prazos, entre dez características mapeadas. No comportamento de personalidades empreendedoras há uma condição comum: uma forte capacidade de definir seu futuro e, com o impulso dessa visão, determinar e trabalhar nos passos que precisam ser dados para atingi-lo. É a orientação que se dá para os esforços que muda o resultado. Essa gente que faz a diferença só tem um segredo: orienta-se para os resultados naturalmente.

*Luiz Fernando Garcia é formado em Administração de Empresas pela Unicamp, com especialização em Mercadologia, é credenciado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para implementar programas de desenvolvimento de educadores para o empreendedorismo.


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