SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 07/08/2007
Autor: Gazeta do Povo
Fonte: Gazeta do Povo

Estratégia também é para os pequenos

Ser pequeno empresário no Brasil não é tarefa fácil. A burocracia estatal, o custo para administrar o negócio, a concorrência e a incompetência na gestão acabam por fulminar as jovens micro e pequenas. Talvez, também, falte sorte. "Mas a sorte só ajuda os espíritos preparados", lembra o professor, consultor e PhD em Administração Pública Belmiro Valverde Jobim Castor, carioca de nascimento que adotou o Paraná há muitos anos.

Para combater o pessimismo e mostrar que há ferramentas úteis, capazes de garantir a sobrevivência no mercado, Belmiro escreveu Tamanho não é documento: estratégias para a pequena e a microempresa brasileira, recém-lançado pela editora Ebel. "A idéia básica é que, claramente, qualquer empresa, de qualquer tamanho, precisa de uma visão estratégica do seu negócio."

Sabedor de que esse palavrório intimida o pequeno empresário, Belmiro simplifica: "Estratégia nada mais é que você pensar sobre um problema de forma mais ampla e tentar tirar vantagem de uma situação".

O livro parte de uma idéia central: três empresários lêem no jornal a notícia de que a população brasileira está envelhecendo, o que pode ter impacto direto nos seus negócios. A partir daí, descobrem - ou não - como se aproveitar dessa situação para crescer.

Com 35 anos de experiência em salas de aula no Brasil e no exterior, o professor soube rechear a obra de exemplos práticos. "A maior parte é tirada da vida real, de experiências com as quais convivi e observações que fiz em sala de aula", conta. Junto aos exemplos, em linguagem simples, o leitor recebe conceitos de análise, administração, gestão e elaboração de um plano estratégico.

Belmiro também é autor das obras O Brasil não é para amadores: estado, governo e burocracia na terra do jeitinho (2000), também publicado nos Estados Unidos, e Para o Brasil voltar a crescer (2007).

Em entrevista à Gazeta do Povo, ele falou sobre as oportunidades do mercado para as micro e pequenas empresas brasileiras.

Gazeta do Povo - Entre outras lições, o livro ensina que o pequeno empresário não deve contar com a sorte. Por que? Belmiro Valverde Jobim Castor - É que eu faço uma brincadeira. No começo do livro, são três pessoas que lêem a mesma notícia de jornal. Os dois primeiros reagem estrategicamente. E o terceiro vira a página para ler o horóscopo. No fim, os dois que pensaram estrategicamente tiveram sucesso. Mas e com o Machado, "o que aconteceu?" Aconteceu nada. A sorte só ajuda quem se prepara para ela. Se a pessoa está despreparada para isso, não há horóscopo nem búzios que resolvam. Sorte e intuição são ferramentas limitadas. O mundo está absolutamente interpenetrado. Você é um pequeno empresário em Curitiba e de repente entra um concorrente chinês aqui. Você tem um produto de grande sucesso e de repente aparece uma grande inovação tecnológica nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão, e em 24 horas você descobre que está totalmente defasado. Para este tipo de mundo não bastam a sorte e a intuição.

Ao invés de usar a sorte, o livro ensina a pensar estrategicamente. O que é isso? É tentar conceber um problema ou situação de maneira ampla, levando em consideração não só aspectos econômicos imediatos, mas outros, de natureza cultural, social, demográfica e tecnológica. Quando comecei a dar aula na Universidade Federal do Paraná, havia um axioma na área de marketing que dizia assim: "Se você quer que uma criança consuma, venda para a mãe dela". Hoje, um menino de 5 ou 6 anos tem vontade própria e decide boa parte do seu consumo. Se você não for capaz de entender essa mudança sociocultural, não entenderá a questão do consumo.

O pequeno empresário tem condições de elaborar um plano estratégico? Isso não é inacessível à pequena empresa? Esse é o grande equívoco. Esse pensamento estratégico pode ser exercitado por empresa de qualquer tamanho. Pensar que as crianças têm vontade própria não exige grandes escalas. O que varia entre a pequena e a grande empresa é o instrumental. Uma pequena empresa talvez não tenha dinheiro para fazer uma pesquisa de mercado sobre um produto novo. Mas este pequeno empresário pode reunir umas 10 pessoas das relações dele e procurar colher impressões sobre seu produto.

Pesquisas sobre as micro e pequenas empresas mostram que elas nascem, muitas vezes, por necessidade ou aventura, e não por vocação. Isso é um problema? Esse é um outro erro que a visão estratégica ajuda a corrigir. Muitos microempresários começam com aquela história: "Eu soube que floricultura está dando dinheiro". E aí abre uma floricultura, mas sem qualquer afinidade com o negócio. Estrategicamente é preciso olhar para as oportunidades e ver para quais você está mais apto. Você diria: "Eu não vou fazer um negócio que não conheça só porque me disseram que dá dinheiro." Isso está acontecendo muito na área de alimentação. Muitos rapazes e moças que fizeram curso de culinária vão abrir um restaurante pequeno, porque sabem cozinhar, gostam de cozinhar. Não porque isso dá dinheiro.

E num mercado com tantas grandes empresas, é possível começar lá de baixo? Ninguém nasce grande. Essa é uma grande lição. E muitas vezes a empresa não quer ficar grande. Ela quer ser lucrativa, produtiva, agradável para se trabalhar. Eu tinha um amigo padeiro que dizia: "Eu fiquei rico com uma padaria e quebrei com três". Ele era um bom confeiteiro, um bom padeiro, se instalou numa vizinhança boa, começou a fazer pães especiais, doces, a conhecer a clientela... quando prosperou muito, comprou mais duas padarias. E aí não tinha tempo nem para fazer doces, nem para os pães especiais, ficava correndo atrás de farinha de trigo, e quebrou.

O livro fala muito sobre oportunidades e ameaças, forças e fraquezas. Como ficam as adversidades do próprio mercado? Isso até agora foi um grande desestimulante. O Brasil realmente é um país muito hostil ao empreendedorismo do pequeno. O número de documentos, a via crucis que o pequeno empresário é obrigado a percorrer para legalizar uma empresa, tudo é muito complicado e muito caro.

A Lei Geral ajuda? A Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, apesar dos problemas com o Supersimples, que eu acho que serão superados, é uma "lei áurea". Facilita tremendamente o trabalho de se começar a empreender. Mas o problema não é só começar. É você ficar dentro da lei trabalhista, sindical, previdenciária e fiscal, enquanto estiver empreendendo. Finalmente parece que o país está despertando para isso. O próprio sistema bancário tem que começar a ver o pequeno empresário de forma mais favorável. Mesmo porque esse pessoal tem que despertar para uma realidade simples: 99% das empresas brasileiras são micro ou pequenas.

Quais são as oportunidades para o pequeno empresário no Brasil? Há muitas. Se você olhar em volta, verá que na área de serviços ainda há um enorme rol de coisas que podem ser descentralizadas e terceirizadas. Você vê a multiplicação de serviços pessoais e industriais. Eu acho que a comercialização via internet e a prestação de serviços com o apoio da internet é outra área que está se desenvolvendo muito. E há a indústria de pequeno porte voltada para esse mercado mais customizado. Uma das tendências do século 21 é as pessoas "fugirem da horda". Antigamente você queria estar na horda, fazer uma coisa que os outros faziam para se sentir socialmente protegido. Se todo mundo usava uma marca, você usava também. A tendência moderna é você, cada dia mais, optar pelas coisas mais individualizadas.

Por exemplo? Existe um negócio no Brasil que tem 300 anos, que é vender cafezinho. Mas cafezinho passou a ser um negócio difícil para se ganhar dinheiro. Se o empresário abrir uma loja no centro da cidade só para vender cafezinho ele não conseguirá sobreviver. Mas você vê que já surgiu uma geração de cafeterias finas. Curitiba tem várias. O cliente chega lá e tem várias marcas de café selecionados, um serviço diferente, o comerciante vende outras coisas que agregam valor... esse cara pegou um negócio que era absolutamente tradicional e o modernizou.

O senhor acredita que no futuro as coisas tendem a melhorar? Sim, porque a tendência é o pequeno empresário ser também um bom cliente. Os grandes industriais estão sendo confrontados pelos grandes compradores. No setor de eletroeletrônicos, a compra está concentrada em sete ou oito grupos, que representam 90% dos negócios. Se esses grandes empresários não conseguirem vender para estes sete ou oito, com grandes concessões, eles não vendem para ninguém. Então eles próprios têm interesse em criar linhas de comercialização para clientes menos poderosos.


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