SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 18/08/2008
Autor: IRINEU BEREZANSKI
Fonte: SEBRAE/SC

Agricultura Familiar: Ameaças e Oportunidades

A agricultura familiar no Brasil, segundo dados do Projeto de Cooperação Técnica INCRA/FAO, representa 85,2% do total dos estabelecimentos, que ocupam 30,5% da área total e são responsáveis por 37,9% do Valor Bruto da Produção Agropecuária Nacional. Estes agricultores com apenas 30,5% da área, respondem por 37,9% de toda a produção nacional. Demonstra-se que há boa eficiência, produtiva, neste sistema. Há muito se tinha que a agricultura familiar era tão só atividade de subsistência. Isto não é verdade, pois a agricultura familiar é responsável por produtos para o mercado interno e produtos para o mercado externo.

Conforme o INCRA/FAO, do Valor Bruto da Produção Agropecuária Nacional, 52% da pecuária de leite, 58% dos suínos, 40% das aves e ovos, 72% da cebola, 97% do fumo, 49% do milho, 67% do feijão, 84% da mandioca, 32% da soja, 31% do arroz, 58% da banana, 27% da laranja, 25% do café e 47% da uva são produzidos nos estabelecimentos da agricultura familiar. A agricultura no Estado de Santa Catarina é tipicamente familiar, 90,5% do total dos estabelecimentos são familiares. Os agricultores familiares de Santa Catarina possuem 60% da área agrícola e respondem por nada menos do que 71,3% do Valor Bruto da Produção Agropecuária Catarinense.

A preocupação com a agricultura familiar, nos últimos anos, vem ganhando força e conseqüentemente ocupando o seu espaço nas discussões que envolvem desenvolvimento. Os debates em torno da agricultura familiar produzem propostas de modelos que possibilitem a melhoria de vida dos pequenos agricultores. No entanto, observamos, na prática, propostas que sublinham com veemência os produtos no campo deixando em segundo plano o cuidado de olhar que neste espaço vivem pessoas. Muitos dos modelos, que preconizam o desenvolvimento relacionado à agricultura familiar, têm o agricultor como objeto para promover ações e não como objetivo de viver dignamente no campo. Assim assistimos apreensivos a desruralização, efeito percebido e sentido por estes agricultores. Estas pessoas acentuam que não tem renda compatível para uma vida digna e demonstram baixas estima. Estes agricultores, migrantes, vislumbram que as cidades oferecem "condições melhores de vida". Pois, mesmo com baixa escolaridade formal, percebem que os centros dispõem de maiores quantidades de oportunidades.

Entre 1996 e 2000, em Santa Catarina, 164 mil pessoas deixaram o campo, ou seja, 13,3% da população rural - (IBGE censo 2000). Se admitirmos uma média de 5 pessoas por família, 32.800 famílias abandonaram o campo em 4 anos. Vale observar que a maior parte dos migrantes é constituída de jovens. Portanto, a agricultura perde, também, vitalidade, vigor e capacidade de inovar. A propensão em aceitar a mudança demanda maior tempo. Este fator desfavorece o setor, pois, com o advento da globalização ganha quem é mais flexível e decide mais rápido. Já o campo, apesar de dispor de muitas informações, poucas são decodificadas e aproveitadas com resultados. Em muitos momentos as informações confundem e desorientam os agricultores, pois são massificadas e desordenadas. São oferecidos muitos caminhos, mas nem todas as ofertas mostram com clareza quais ferramentas, equipamentos e meios necessários para transitar com segurança.

O pequeno produtor tem um sistema de comercialização primitivo, praticamente não vende a produção e sim entrega o que produz. Neste item entendemos que o agricultor sabe produzir, mas não sabe vender. Se pensarmos no consumidor é notório a exigência crescente pela qualidade. O agricultor produz qualidade, mas não vende qualidade. O trabalho de pós-colheita é inadequado, produtos bons são misturados com aqueles de qualidade duvidosa. Desta maneira a produção é depreciada, repercutindo em preço inferior. As opções de serviços: classificação, padronização e pré-preparo são transferidos para o meio urbano. Isto significa desagregação para o agricultor e para a sociedade em geral representa maiores custos, pois são transportados materiais descartáveis que muito bem podem ser aproveitados na agricultura. Os agricultores têm dificuldades de realizar as operações de comercialização direta ao mercado consumidor. É necessário criar organizações representativas no mercado. Firmas intermediárias de comercialização para o mercado atacadista. As organizações devem atender escalas exigidas pelo mercado beneficiário. Os agricultores familiares poderão fazer produção diferenciada. Fazer produção que tenha apelos relacionados à ecologia, etnia, cultura, ao social, paladar. Para isto necessitam desenvolver marketing apropriado. Uma pequena parte destes agricultores poderá partir para a produção customizada, ou seja, fazer produtos demandados por clientes específicos. Clientes que compram por estima, se reportam ao histórico do produto, a história de uma determinada região ou a um conceito étnico relacionado ao produto.

O meio rural, oferece oportunidade de realizar serviços, principalmente para servir à atividade do turismo. Cabe provocar mudanças aceitando que o rural não é só o local de produção, mas onde podem ser realizados serviços diversos. Podem ser criados empreendimentos que demandem mão-de-obra de diversas qualificações, viabilizando a permanência das pessoas no meio rural. O campo pode assegurar, à família, oportunidades de industrialização da produção, permitindo realizar agregação de valores aos produtos. Este sistema viabiliza a permanência da moça e do moço na atividade rural, motivados por empreenderem; por terem onde crescer em renda e conhecimento. A renda oriunda somente do setor agrícola, na propriedade rural, eleva os riscos, pela grande variação que os produtos agrícolas sofrem. Devem-se criar indústrias a fim de diminuir os riscos procedentes. O processo de desenvolvimento de indústrias pode ser feito por pequenos, mas eficientes empreendimentos. Haverá melhor distribuição de renda e diminuem-se os riscos. Na criação de uma indústria, toda fase do processo de agregação de valores deve ter ganho (valor adicional), caso contrário, não tem porque faze-la. Não há possibilidade de sobrevivência para empreendimentos administrados com amadorismo. Não confundir administração de empresas - critério gerencial, com desenvolvimento - critério social e gerencial. O êxito dos agricultores está na educação, na capacitação do uso de ferramentas para tomadas de decisão, visando abrir caminhos mais rápidos para o mercado consumidor.

É preciso dizer que se não diferenciar a agricultura familiar, propondo condições de sua peculiaridade, o efeito será mortífero. Pois, se a visão for de igualdade com as grandes corporações teremos o desaparecimento dos agricultores familiares. Isto causará efeitos nocivos a toda sociedade, com desequilíbrio, social e ambiental.

Deve-se deixar claro que a agricultura familiar é a favor de oferecer produtos com ótima qualidade sanitária.

No entanto, não há concordância na exigência por condições estruturais incompatíveis economicamente. Não se entende porque da necessidade de três tipos de inspeção: Municipal (SIM), Estadual (SIE) e Federal (CIF). Será que se produzirmos em um determinado município, respeitando as condições sanitárias, e que esta população consuma este produto, não será adequado à população vizinha, de outro município qualquer.

Em Santa Catarina, a agricultura familiar é responsável pela produção da maioria dos alimentos. No entanto, é a que menos é remunerada. Isto, na maioria das situações ocorre pela falta de agregação de valor. Sem dúvida, tal fato, está na burocracia e nas exigências estruturais incompatíveis com o agricultor familiar. Fato este, já vencido nos países desenvolvidos, como é o caso da França, Itália e o no vizinho Chile.

Portanto, há necessidade urgente, de compatibilizar as exigências sanitárias que permitam qualidade, que é o desejo dos produtores, mas que sejam possíveis e viáveis de ser implantados por estes produtores. Não se pode atravancar o desenvolvimento por se ter uma visão míope. Precisamos ver a realidade de fato. Dessa maneira estaremos oportunizando um mundo onde se possa viver melhor, socialmente, ambientalmente e economicamente.

As oportunidades são aproveitadas, quando são utilizadas metodologias que atendam as necessidades percebidas e sentidas pelas pessoas que demandam. O desenvolvimento destas oportunidades deve ser um processo dirigido que construa ações entre os três setores econômicos: primário, secundário e terciário. Deve ter como objetivo principal motivar e impulsionar uma massa populacional às melhores condições de vida, tanto no aspecto econômico, como físico e social. As políticas de desenvolvimento devem ser (honestas e continuas). Deve haver incentivos para trabalhar e produzir. Deve oferecer conhecimento (know How); que exista pesquisa (investigação) para buscar a economicidade do conjunto da unicidade familiar e que se transmita (extensão rural). O desenvolvimento efetivo passa pelos agentes competentes e motivados. Há necessidade de decodificar o que a população necessita e o que o agente pode oferecer. Caso contrário, haverá dificuldades em entender o que ambos esperam.

Sobre o autor: IRINEU BEREZANSKI é consultor do SEBRAE/SC e pode ser encontrado pelo e-mail irineubere@yahoo.com.br. As opiniões expressas no artigo são de responsabilidade do autor, não coincidindo necessariamente com as do SEBRAE/SC.


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