SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 10/12/2002
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

Empreendedores e políticas públicas

As ONGs, ou Organizações da Sociedade Civil (OSCs), estão mudando a sua maneira de planejar e implementar um projeto. Protagonistas de mudanças sociais profundas e de largo alcance, algumas ONGs e os empreendedores sociais que as lideram, já demonstraram que suas idéias e seus projetos são capazes de modificar uma tendência histórica na área social - a que manteve baixos padrões de qualidade e de impacto por décadas. Muitas delas já comprovaram, através de resultados concretos, que seus projetos podem crescer e influenciar políticas públicas no Brasil.

Se até agora falávamos da transferência de conhecimento e de tecnologia do setor privado para a área social, chegou a hora de começar a analisar seriamente a inversão desta lógica. Durante os últimos anos, as ONGs se capacitaram, buscaram novas metodologias de trabalho e de gerenciamento de recursos, adentraram o cenário nacional e internacional participando da construção dos grandes temas sociais contemporâneos. Fizeram isto associando um processo de aprendizado constante à busca de resultados concretos para o país. Mais do que isto foram guiadas, em sua maioria, por valores éticos e humanos e pela convicção de sua responsabilidade e de seu papel para o futuro da sociedade.

Pensando nisto, a Ashoka e a McKinsey iniciaram, em 1999, um concurso anual de planos de negócios para OSCs, conhecido como Prêmio Empreendedor Social, com o objetivo de disponibilizar uma metodologia de planejamento que as ajudasse a planejar novos produtos e serviços, a captação de recursos e, por fim, a sua sustentabilidade. Durante os últimos quatro anos centenas de OSCs puderam planejar produtos e serviços que focavam, prioritariamente, na geração de renda e de trabalho. A cada ano, um júri formado por empresários, representantes de fundações nacionais e internacionais, pela Ashoka e pela McKinsey selecionou três ganhadores, que receberam um prêmio em dinheiro para a implementação do projeto.

Este ano, os vencedores trouxeram um aspecto novo e decisivo para o posicionamento do terceiro setor como produtor de mudanças sociais, de resultados concretos e de ações bem planejadas. Os três projetos ganhadores - Ação Educativa, Instituto Brasileiro de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (IBDD) e o Consórcio Intermunicipal das Bacias do Rio Piracicaba, Capivari e Jundiaí - planejaram também sua expansão e a inserção em políticas públicas. Durante seis meses estas organizações imergiram em um processo profundo de planejamento, visando não apenas alcançar resultados financeiros para a sua sustentabilidade, mas também expandir seus projetos para toda a sociedade. Eis alguns dados sobre o que planejam fazer.

A Ação Educativa atua em âmbito nacional na constituição e efetivação dos direitos educativos e de juventude, tendo em vista a promoção da justiça social e o fortalecimento da democracia participativa. Está desenvolvendo um programa de estímulo e capacitação técnica para 93 secretarias de educação na criação e fortalecimento de setores responsáveis pela promoção de educação de jovens e adultos. Planejam atingir 4 milhões de pessoas analfabetas acima de 15 anos ou com menos de 3 anos de escolaridade.

O IBDD realiza prestação de serviços e consultoria para empresas, governos e instituições, na questão da construção e defesa dos direitos de cidadania das pessoas portadoras de deficiência física, visual, auditiva e mental no Brasil. Está trabalhando atualmente no desenvolvimento de serviços de terceirização de mão-de-obra para inserção de portadores de deficiência em empresas públicas e empresas privadas. Pretende atender 20.000 portadores de deficiência nos próximos 5 anos.

Por fim, o Consórcio é composto com a participação de 42 prefeituras municipais e 35 empresas públicas e privadas. Dentre suas ações encontram-se os planos diretores e projetos executivos para tratamento de esgoto de 17 municípios, Plano Diretor de Captação e Produção de Água para as Bacias dos Rios Piracicaba e Capivari e desenvolvimento de projeto de conscientização e educação ambiental que envolveu mais de 160 mil crianças anualmente. No momento, o Consórcio está dedicado à implantação de programas de coleta seletiva nos 19 municípios da região metropolitana de Campinas. A iniciativa contará também com a participação de Conselhos Locais e Conselho de Gerenciamento de âmbito regional formado pela Cetesb e Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado. Em 12 meses de desenvolvimento do projeto, o Consórcio prevê a implantação de 9 Centrais de Triagem que gerariam diretamente 225 postos de trabalho.

Os exemplos dados aqui indicam que a sustentabilidade deste novo setor deve combinar geração de recursos com o comprometimento e a seriedade com as questões sociais em âmbito nacional. Embora o cenário do terceiro setor atualmente aponte para uma obsessão em captar e gerar recursos frente a diminuição de investimentos na área social, estas organizações respondem, de forma estruturada e profissional, ao cumprimento de seu papel fundamental no desenvolvimento social.

Não estão buscando respostas apenas para seus desafios internos, mas também para desafios de toda a sociedade brasileira.

*Anamaria Schindler é mestre em Sociologia, vice-presidente internacional de parcerias estratégicas da Ashoka Empreendedores Sociais

E-mail: Anamaria_Schindler@mckinsey.com


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