SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 13/03/2003
Autor: Jornal do Commércio
Fonte: Jornal do Comércio

Cuidados na escolha do sócio

Solução ante a escassez de recursos, parceria pode tornar-se
problema quando mal escolhida

O sonho de montar um negócio próprio quase sempre esbarra na falta de capital suficiente. A solução é simples: um sócio. Mas o que parece ser a saída para os problemas pode acabar se tornando o maior deles. Para os consultores a relação entre sócios é mais delicada do que um casamento, pois envolve, principalmente, aspectos financeiros. Para evitar o fim muitas vezes traumático da união, o ideal é começar a pensar em todos os prós e contras antes de escolher o parceiro no negócio. A chef Adriana Mattar, dona do Buffet Cooking, já teve duas sociedades desfeitas. Nos dois casos, ela e os sócios já tinham uma relação pessoal antes da união profissional. "Na primeira vez me tornei sócia de um amigo em um restaurante japonês. Durou quatro anos, mas ele já tinha o negócio e entrei como minoritária. Ele acabava concentrando a maior parte das decisões. Hoje não me candidataria a sócia em um negócio se não tivesse um conhecimento forte a agregar", conta.

A segunda experiência de Adriana foi ainda mais complicada, pois sua sócia era também sua cunhada. Além de desentendimentos profissionais, a separação da cunhada e do irmão de Adriana acabou afetando a sociedade. "Uma série de fatores abalaram a relação profissional. Além do problema pessoal, não tínhamos a mesma dedicação ao bufê, pois ela tinha um outro trabalho. Se ambos não se dedicam com a mesma intensidade, as chances de dar certo diminuem 50%", acredita.

Apesar de tudo, ela não desistiu de procurar um parceiro para tocar o restaurante Anexo Artefacto, na Artefacto do Casa Shopping. Dessa vez, entretanto, o cuidado na escolha será redobrado. Além de evitar parentes e amigos, ela busca alguém que divida os custos do negócio mas também as tarefas administrativas. "Não quero comprar um novo problema, mas ainda acredito que vale a pena ter um sócio. O importante é estabelecer regras claras e objetivos comuns", diz ela.

Presidente da Bernhoeft Consultoria, especializadas em empresas familiares e gestão, Renato Bernhoeft aconselha os candidatos a sócios a investirem tempo no conhecimento mútuo. Primeiro é preciso pensar no tipo de sócio que se quer ter, depois procurar saber como ele lida com o poder, dinheiro, como se comporta em situações de fracasso.

- É comum o sócio que entrou com o dinheiro reclamar que tem pouco retorno e o que trabalha dizer que está recebendo pouco. Isso é fruto da falta de diálogo antes da formação da sociedade. Para quem não achar um sócio ideal, há soluções como buscar uma agência de financiamento", lembra.

Acostumado a lidar com futuros sócios que se candidatam a franqueados de sua empresa, a De Plá, Daniel Plá diz que também avalia a relação entre eles na hora de fechar o contrato de franquia. O ideal para Plá é que os sócios se conheçam há pelo menos três anos.

- Na prática, a maioria dos negócios só é viável quando há sociedade. O melhor é que ela se dê em igualdade de condições no quesito trabalho e que o investimento de uma das partes não seja muito superior ao da outra. Para alguns, a divisão 60% a 40% é uma boa forma de estabelecer quem comanda, outros acham que o melhor é dividir meio a meio, diz.

Embora com apenas seis meses, a sociedade de Bruno Bastos e Paulo Torres, franqueados De Plá, é apontada pelo empresário como promissora. Além de terem a mesma idade e se conhecerem há quase dez anos, os dois dividiram igualmente a quantidade de horas trabalhadas e entraram com os mesmos recursos na sociedade.

Bastos diz que o fundamental é a confiança entre os sócios e a completa interação sobre todos os assuntos da loja. Tudo, desde o tratamento dispensado aos funcionários, divisão de lucros e as metas de ambos, foi discutido antes da formalização do negócio.

"Já tive uma sociedade antes em uma empresa de medicina do trabalho. Saí porque arranjei um emprego melhor mas não houve problema. Esperei até que meu sócio tivesse outra pessoa pra deixar em meu lugar. O importante é dialogar", diz.

A psicóloga Gloria Zlotnik Chehaibar trabalha com a mediação de conflitos e lida com problemas entre sócios diariamente. Um dos maiores dificuldades, segundo ela, é que quase sempre os casos chegam à suas mãos quando a situação entre os sócios já se tornou insustentável. "Quando a bomba estoura, os mais flexíveis ainda tentam resolver por meio da mediação para evitar um processo judicial, por exemplo", diz ela.

Mediador facilita interação entre as partes
Para Gloria, o ideal é procurar auxílio antes mesmo de a sociedade se formar. "O trabalho do mediador é possibilitar um maior conhecimento entre as partes. Há perguntas muitas vezes constrangedoras mas indispensáveis para a boa formação da sociedade.

Ao concretizar a sociedade, o diálogo muitas vezes fica prejudicado por causa dos medos e despreparo dos sócios de questionarem um ao outro", explica.

As consultas e discussões entre os parceiros são detalhadas em um relato feito pelo mediador, que pode acabar sendo convertido em um acordo formal. Alguns inclusive homologam em cartório as novas regras acertadas. "É fundamental detalhar a participação de cada um no negócio. A falta de comunicação é a maior inimiga das sociedades", avalia.

Tomar decisões estratégicas para a sobrevivência da empresa e acompanhar os resultados devem ser decisões conjuntas para o consultor da Treinasse Consultoria, Ulysses Reis. "Fora isso é bom que as áreas de atuação sejam bem definidas e comandadas por apenas um dos sócios. Não dá para os dois decidirem tudo ou nenhum decidir em algum assunto", afirma.

Reis considera válido abrir a sociedade para novos integrantes após algum tempo para que o negócio se amplie. "Mas a gestão fica mais complicada. Uma boa idéia é se associar para o desenvolvimento de um projeto independente. É uma forma de conhecer o trabalho daquela pessoa e descobrir se essa será uma boa parceria. Se não der certo, é só não se associar numa próxima vez", diz.

O engenheiro Roberto de Almeida Dias se tornou o quarto sócio da empresa HJ Rodrigues Melo Ltda há 8 anos. "A empresa já existia e entrei para contribuir com a parte técnica e comercial. O fato de ter uma participação menor não dificultou em nada. O importante é cada um fazer a sua parte e resolver os problemas com diálogo", afirma.

Se por um lado acredita na importância de conhecer o futuro sócio, Reis não vê a sociedade familiar como uma boa escolha. O parentesco pode atrapalhar por impedir a imparcialidade nas decisões. "Parente não se demite. Ter essa liberdade é importante pois a maior preocupação deve ser com o negócio, e não com as pessoas envolvidas. No caso de um trabalho ruim tenho que cobrar", diz.

Pérola Lourenço, franqueada da cafeteria Grão Espresso e do restaurante Montana Grill Express, não concorda com essa teoria. Casados há 18 anos, ela e o marido, Nelson Lourenço, trabalham juntos desde 1989 e hoje são sócios nos dois negócios. Um dos segredos para o sucesso da união é a divisão de tarefas entre os dois. "Enquanto ele cuida da parte comercial, da estrutura da loja e faz contatos, eu cuido mais da parte administrativa. Além disso nos revezamos à frente das duas lojas que ficam no mesmo centro empresarial", conta.

Ter objetivos parecidos também é importante na opinião de Pérola. O casal chegou a ter uma outra empresa, a Bit Express, que depois se uniu à Boy Service. "A sociedade acabou se desfazendo porque nossa visão empresarial era completamente diferente da do outro sócio. Seu estilo era mais arrojado, apostava no crescimento mesmo que representasse correr riscos. Já nós queremos crescer, mas somos mais conservadores", avalia.

Relacionamento entre franqueador e franqueado
Ulysses Reis crê que o relacionamento entre franqueadores e franqueados também é uma espécie de sociedade e exige o mesmo cuidado antes de ser firmada. Pérola concorda e diz que não é simples manter uma boa relação entre ambos. "Mas procuramos evitar problemas e dialogar. Pesquisamos bastante antes de escolher o negócio e conhecemos franquias totalmente inflexíveis com seus franqueados, o que dificulta muito o andamento das coisas", diz.

Carmem Cardoso, consultora da TGI, empresa de gestão empresarial, diz que é possível recuperar uma sociedade problemática, desde que não haja pontos inegociáveis como dúvidas sobre o caráter dos sócios, prejuízos irrecuperáveis e incompatibilidade de valores. "O primeiro passo para chegar a essa recuperação é entender a natureza da dificuldade, inclusive o nível de motivação para preservar a sociedade, criar um fórum de discussão e negociação e por fim pactuar para que esse fórum seja posto em prática", diz.

Mesmo com todos esses cuidados a sociedade pode acabar não dando certo. Estabelecer regras para uma eventual dissolução é a melhor forma de evitar conflitos mais sérios. "A forma de distribuição de haveres e o uso de bens da empresa devem ser pré-estabelecidos. Além disso, é importante estabelecer prazos para a saída de um sócio e outras regras como no caso de morte ou afastamento", lembra Renato Bernhoeft.


Passos para uma sociedade bem sucedida
>> Pensar no que você tem a oferecer a ele e vice-versa.
>> Ser transparente na exposição dos objetivos da sociedade.
>> Avaliar pontos que possam atrapalhar a relação.
>> Definir os papéis de cada um.
>> Estipular como será feito o controle financeiro da empresa, de preferência em conjunto.
>> Abrir uma conta conjunta ou em nome da empresa pode ser um bom passo para evitar desentendimentos.
>> Repartir as responsabilidades na sociedade.
>> Não ignorar os conflitos quando surgirem.
>> Restringir os problemas da empresa ao ambiente de trabalho.
>> Ter uma boa assessoria jurídica e estabelecer regras contratuais claras.
>> Incluir cláusulas que disciplinem uma eventual dissolução da sociedade pode ser uma boa medida.


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