SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 07/04/2003
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

O empreendedorismo nosso de cada dia

Há uma contradição explícita e inquietante na vocação empreendedora da população brasileira. O ímpeto de abrir o próprio negócio contrasta com as dificuldades impostas pela conjuntura econômica movediça, e a instabilidade global provocada pela estagnação dos investimentos. Adicione-se a isso a burocracia complexa, a ausência das linhas de crédito, a falta das políticas de incentivo de legislação tributária específica que proteja e impulsione o segmento ao mesmo tempo. Isso sem falar nas altas taxas de juros que oneram o setor produtivo e impedem qualquer desejo expansionista. Tanto obstáculo justifica o índice de mortalidade que atinge 30% das novas empresas no primeiro ano de vida.

Muitas dessas companhias, no entanto, nascem na esteira da fantasia de seus idealizadores e, certamente, naufragam em meio à travessia improvisada. Empreendedorismo não é moda, embora haja uma onda avassaladora em torno do tema. Existe até certa banalização acerca da utilização do termo, pois nem todo mundo que se aventura nessa seara pode ser considerado como tal. O verdadeiro espírito empreendedor não é, de maneira alguma, uma necessidade de sobrevivência num cenário contaminado pelo desemprego. Essas distorções na compreensão do conceito colocam qualquer movimento nu mesmo pacote. E não é bem assim.

Numa perspectiva macroeconômica, o empreendedor é aquele sujeito que se apóia no planejamento estratégico, configurado ao minucioso levantamento de informação sobre o mercado e suas potencialidades, auxilia na minimização dos riscos e aumenta a possibilidade de sucesso. Não se trata de um lunático. Porém, é ousado e diferenciado. Ao definir os processos e definir o foco de atuação, o êxito pode estar atrelado a um fator que extrapola as fronteiras econômicas e tecnológicas. Refiro-me ao carinho e afeto com que a pessoa física torna-se pequeno ou médio empresário. Há de se estar encantado e apaixonado pelo negócio. É essa paixão que coloca o Brasil como um dos países mais empreendedores do mundo.

O brasileiro, no entanto, é mestre em superar as tempestades e dominar as turbulências. Sabe, como nenhum outro povo, conviver com a frustração. Esse espírito necessita estar estruturado em bases sustentáveis para se obter resultados satisfatórios. Se as incertezas requerem prudência, ressalta-se que são nos momentos de crise que se desnudam as maiores chances. Afinal de contas, não ter chefe, comandar a própria agenda, optar por horário flexível, por exemplo, é o sonho de qualquer um. Porém, exige-se dose equilibrada de determinação para enfrentar as intempéries.

O empreendedorismo configura-se na implementação de políticas públicas que vislumbram o enfrentamento da crise com inovação. Esses personagens transformam boas idéias em oportunidades de negócio, e se capacitam financeiramente e intelectualmente para viabilizá-lo, num palco em que investir significa correr riscos. Além de tudo, geram riquezas e abrem novos postos de trabalho. O medo de não arriscar atrofia a criatividade e engessa qualquer possibilidade de crescimento. Empreender em nosso país é caminhar num ambiente aflitivo.

São essas pequenas companhias que apresentam dinamismo necessário para se adaptarem às mudanças bruscas de rumo. São os empreendedores que se nutrem de audácia para impulsionar, fomentar e fortalecer o mercado interno, além de desenvolver o crescimento regional. São essas empresas que podem auxiliar na construção de um país moderno e plenamente integrado à globalização. Essa capacidade traduz-se em força competitiva, e é disso que o Brasil mais necessita.

O puro e legítimo empreendedor é aquele cidadão que, ao analisar as ameaças e oportunidades, antecipa o futuro e utiliza-se das adversidades a seu favor. O ato épico e heróico de empreender significa transformar o mercado em algo relevante e inspirador. Ele se torna num modelo a ser copiado, um exemplo a ser seguido. É por isso que qualquer profissional não necessita ser proprietário para estar na trilha do empreendedorismo. Ele pode acontecer na condição de técnico, gerente, coordenador, diretor, não importa. Basta inovar, ousar e reiventar a todo instante para fazer a diferença, num mercado cada vez mais enxuto e competitivo. Esses traços ajudam o empreendedor a arrumar maneiras de fazer sempre melhor a mesma tarefa, e romper com velhos hábitos. A capacidade de criar oxigena sua fertilidade, pois há uma boa idéia a caminho. Está embutido no seu código genético cavar um jeito surpreendente de executar as tarefas diárias. Esse exercício requer carinho, afeto e paixão.

*Júlio Sérgio Cardozo é presidente da Ernst & Young


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