SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 16/05/2003
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

Olhando para as empresas familiares

Depois de décadas de silêncio e discrição, as empresas familiares estão atraindo o interesse de pesquisadores e da mídia. O colapso do valor das ações de renomadas empresas de capital aberto tem deslanchado um novo interesse nas empresas familiares que aparentemente transcendem séculos, sobrevivem tempestades e crescem cada vez mais fortes. Empresas familiares dinásticas, como a Kikkoman no Japão, a maior fabricante de molho shoyu do mundo, que está no controle da família Mogi há 16 gerações, nos fazem levantar uma série de questões-chave. Como que elas conseguem? Quais lições ou melhores práticas se aplicam a outros tipos de empresas? Por outro lado, a quais sinais de perigo as empresas familiares deveriam estar atentas?

O que são empresas familiares? Esta pergunta é mais difícil do que parece. Geralmente, empresas familiares são empresas nas quais membros da família detêm uma parcela significativa das ações. Porém, é também importante qualificar o papel que a família tem na gestão. Algumas empresas familiares têm equipes de gestão independentes, como a Interbrew na Bélgica, a terceira maior cervejaria no mundo, e outras são essencialmente lideradas pela família, como a Editora Abril no Brasil. A abrangência do envolvimento da família em duas dimensões críticas - propriedade e gestão - tem ramificações profundas que representam potenciais fortalezas assim como desafios para as empresas familiares.

A característica principal da maioria delas é a orientação de longo prazo. Enquanto as bolsas de valores tipicamente focam em lucros e crescimento - exercendo pressão contínua na maioria das empresas cotadas - as famílias proprietárias geralmente estão focadas na manutenção e no fortalecimento da herança patrimonial. Ou seja, independentemente de quão adversas a risco elas são, a maioria das famílias proprietárias acredita que o longo prazo é mais importante que o curto prazo.

Em eras turbulentas, as familiares tendem a demonstrar maior capacidade de recuperação que as de capital aberto, devido à sua habilidade em agüentar a tempestade e aguardar tempos melhores. Em negócios altamente cíclicos, como a comercialização de commodities, estas habilidades podem ser críticas.

Uma visão de longo prazo traz outras vantagens. As familiares podem desenvolver planos de investimento de longo prazo e cultivar relacionamentos com fornecedores, governos e parceiros sem se sentir pressionadas a agradar os mercados. As familiares também desfrutam de maior continuidade da liderança.

Na conjuntura que a economia mundial se encontra, é válido perguntar se os mercados de capitais não deveriam recompensar empresas que demonstram a mesma perspectiva de longo prazo que as empresas familiares. Em contrapartida, muitas empresas familiares tendem a ter dificuldades em atrair recursos financeiros e humanos. Acesso a capital é freqüentemente um problema. Famílias proprietárias geralmente são obcecadas com a questão do controle. Isso pode inibir o crescimento de negócios promissores e, às vezes, comprometer uma liderança setorial ou a sobrevida da empresa. Muitas vezes, a falta de capital resulta em níveis de reinvestimento inadequados, manutenção de produtos tradicionais e tecnologias obsoletas e na fidelidade por certas localidades.

Empresas familiares tendem a sofrer da dificuldade de atrair talento gerencial, um problema que, em geral, não é totalmente culpa delas. A razão principal é: executivos não relacionados com a família que ingressam na empresa temem que eles não tenham o mesmo nível de acesso a informações gerenciais, responsabilidades suficientemente amplas ou oportunidades. Porém, esta questão é muitas vezes agravada pelo fato que, devido a várias razões, as estruturas organizacionais de empresas familiares não são sempre transparentes. Em várias situações, membros da família atuam além das atribuições de suas funções ou desrespeitam a hierarquia. Este comportamento pode enfraquecer a estrutura da empresa e desmotivar alguns dos melhores executivos.

Provavelmente, uma das maiores vantagens de ser uma empresa de capital aberto é a análise contínua, por parte do mercado, do valor das ações, dos concorrentes, dos clientes, da equipe de gestão e das capacidades. Essa vigilância pode ser positiva à medida que requer um foco em resultados e desempenho por parte dos executivos da empresa. O contra-argumento é a independência de atuação, característica importante de controle familiar. Empresas familiares podem considerar cautelosamente as tendências que influenciam as bolsas sem a pressão de atuar sobre elas. Na mesma linha, a agilidade na tomada de decisões é provavelmente o ativo mais valioso das empresas familiares.

Quando está tudo dito e feito, muitas empresas poderiam aprender com a forma de atuar de famílias proprietárias. E as lições principais são simples. O valor de utilizar o senso comum cauteloso versus sucumbir às pressões do mercado ou dos investidores. O valor de se manter focado no longo prazo ao invés de adotar o último modismo sem visualizar as implicações futuras. No clima econômico atual, várias empresas familiares parecem ter muitos aspectos pesando a favor delas. E, se elas ficarem atentas a questões relacionadas com sua governança corporativa, como está sendo o caso de empresas como Pão de Açúcar, Santher e Moinhos Unidos Brasil, elas provavelmente sobreviverão a todos nós.

*Jean-Claude Ramirez é vice-presidente do escritório de São Paulo da Bain & Company

*Louis Amory é vice-presidente do escritório de Benelux da Bain & Company


Destaques da Loja Virtual
EU QUERO SER EMPRESÁRIO ... RICO!

Você sabe por que a maioria das empresas brasileiras sobrevive, mas não enriquece? Sabia que Deng Xiaoping ergueu na China, há quase trinta anos, a ba...

R$33,00