SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 27/05/2003
Autor: Juliana Doretto
Fonte: FOLHA ONLINE

Aprendendo a empreender

Professora, minha avó sabe fazer uns bolinhos bem gostosos. Vou pedir a receita para ela, e a gente pode vender." Lucas Cavasin de Souza, 8, aluno da terceira série do Colégio Guilherme Dumont Villares, na zona sul de São Paulo, não está atrapalhando a aula. Ao contrário, poderia estar fazendo a lição de casa.

Todas as séries da escola, do ensino fundamental ao médio, passaram a ter aulas de empreendedorismo neste ano. O programa, promovido pelo Sebrae de São Paulo, capacitou alguns professores do colégio para ministrar conceitos como a elaboração de um plano de negócios, a implementação de miniempresas e o desenvolvimento de relações de trabalho.

O Dumont Villares não é o único a oferecer o ensino de empreendedorismo em seu currículo. Uma parceria entre o MEC e o Sebrae iniciada em 2000, a campanha Educação Empreendedora para Milhões, pretende levar o conceito a todas as escolas da rede pública do país. Os professores, voluntários e de quaisquer áreas, receberão capacitação pelo Sebrae para inserir o tema nos programas de seus cursos. "A idéia é criar atividades ligadas ao empreendedorismo em qualquer disciplina, sem reservar um curso específico para isso", afirma Ênio Pinto, gerente nacional da Unidade de Educação Empreendedora.

Segundo ele, ingressam no ensino superior apenas 3 milhões dos 8,5 milhões de alunos do ensino médio. Os 5,5 milhões restantes vão diretamente para o mercado de trabalho. "A impressão que ainda se tem é que ser empreendedor é estar permanentemente correndo riscos e que se faz isso por necessidade, por não ter conseguido um emprego estável. Mas, hoje, a única maneira de criar emprego é o auto-emprego", diz.

O projeto já foi implantado no ensino profissionalizante —nos Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica) e Ifets (Instituições Federais de Educação Tecnológica) que se interessaram pelo programa—, capacitando professores e implantando incubadoras de empresas. "Cada escola decide a forma como vai implementar e avaliar: disciplinas, eventos ou feiras para vendas de produtos confeccionados pelos próprios alunos", diz a professora Ivone Moreyra, da Secretaria de Educação Média e Tecnológica do MEC.

A Junior Achievement também promove o empreendedorismo no ambiente escolar. Iniciada em 1919 por dois empresários americanos, a fundação chegou ao Brasil em 1983 e espalhou-se por dez Estados. Presente em em 112 países, a entidade já promoveu, somente no Brasil, cursos para 500 mil crianças e adolescentes. Os programas, da quinta série do ensino fundamental à primeira do ensino médio, são oferecidos em forma de disciplinas, ministradas por empresários voluntários treinados —chamados de "advisers".

Na segunda série do ensino médio, os alunos que participam dos programas têm de montar uma miniempresa —e não é simulação, é vida real: captam investimentos por meio da venda de ações, escolhem um produto a ser vendido, o produzem e o vendem, recolhendo impostos e pagando salários.

No Colégio Friburgo, na zona sul de São Paulo, os alunos do ensino médio terão empreendedorismo como uma nova disciplina no currículo optativo. A atividade fará parte do Programa de Formação para o Trabalho e a Cidadania, implantado há sete anos pela escola, que oferece aos alunos disciplinas de introdução a algumas áreas profissionais, como direito, economia e terceiro setor, ministradas por professores convidados.

As discussões sobre o ensino das habilidades e competências para empreender estão esquentando e já foram objeto um fórum nacional, realizado em outubro do ano passado, no Paraná. "Há uma febre de que o currículo, para ser moderno, deve ter uma disciplina de empreendedorismo. Mas ensinar como e para quem?", pergunta o professor Luis Maurício Resende, coordenador do Programa Jovem Empreendedor, do Cefet de Ponta Grossa, e um dos organizadores do fórum.

Um segundo encontro está previsto para o segundo semestre deste ano. Entre as discussões, a avaliação é ponto central. "Propõe-se uma nova discussão [sobre empreendedorismo] dentro de uma estrutura escolar tradicional. É uma disciplina curricular, o aluno precisa de uma nota. Mas por que se reprovaria esse aluno?", pergunta o professor.Para Fernando Dolabela, mestre em administração pela UFMG e autor de vários livros sobre o tema, os cursos de empreendedorismo partem de um pressuposto equivocado. "Empreender não é um conteúdo escolar, não é uma disciplina na qual se aprende conteúdo. É uma forma de ser, e não de saber. Quando se ensina ferramentas e práticas, não se ensina a ser empreendedor. Até porque também se empreende no próprio emprego", afirma.

Dolabela está implementando uma metodologia de ensino de empreendedorismo para crianças, a partir da educação infantil, nas escolas da rede municipal das cidades de São José dos Campos (SP), Três Passos (RS), Santa Rita do Sapucaí (MG) e Japonvar (MG) —atingindo 70 mil alunos. Em sua metodologia, o professor em sala de aula faz o papel de facilitador. "Deve-se fazer a criança formular seus sonhos. A partir daí, descobre por quais caminhos terá de passar para realizar esses sonhos", explica.

Nas faculdades de administração do país, empreendedorismo é tema desde os anos 80. Segundo Tales Andreassi, professor de empreendedorismo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo —a primeira a oferecer a disciplina, em 1981—, o conceito está relacionado à reengenharia e ganhou força com as mudanças no mercado de trabalho a partir dos anos 90. "Hoje, o que se deve garantir é a empregabilidade, e não o emprego: boa formação para conseguir colocação em vários lugares ou para montar seu próprio negócio", afirma Andreassi.

Atualmente, no Brasil, boa parte dos cursos de graduação em administração de empresas contempla de alguma forma o tema empreendedorismo em seu programa. Segundo Mauro Kreuz, presidente da Angrad (Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração), na grade curricular, "a preocupação com o ensino de empreendedorismo alia o ato de empreender à gestão do empreendimento".

Andreassi, da FGV, no entanto, acredita que haja um "espírito empreendedor" que se expresse desde cedo. "Em relatos de empreendedores, é comum perceber que as primeiras iniciativas ocorreram quando ainda eram crianças. São pessoas com algumas características inatas, como perfil não conservador e coragem de correr riscos", diz.

Para o professor Sérgio da Silva Leite, da área de psicologia educacional da Unicamp, é possível desenvolver o empreendedorismo em qualquer criança. "A concepção de que as pessoas já nasçam com a essa predeterminação é difícil de ser sustentada. Não existe nenhum gene que determine alguém a ser empreendedor. A habilidade ou a aversão a empreender é fruto de uma experiência de vida", afirma.

Jhony Ruan dos Santos, 14, aluno da escola estadual Gustavo Peccinini, em Limeira, no interior de São Paulo, levou para fora da sala de aula os conceitos de gestão que aprendeu há dois anos, na sexta série, em um programa da Junior Achievement. "Contava o que aprendia para meu pai, dono de uma fábrica de brincos. Ele se interessou e procurou a diretora da escola para saber se tinha um curso assim para ele." O pai acabou se matriculando em uma capacitação do Sebrae e o estudante passou a ajudar na administração da fábrica. Mesmo assim, ele não pensa em abrir o próprio empreendimento em breve. "No começo da carreira, é muito difícil montar um negócio; prefiro, antes, trabalhar em uma empresa, para ter mais experiência."


ESTUDANTES EUROPEUS TAMBÉM ARRISCAM

Na Europa, os programas de fomento às empresas escolares (ou miniempresas) viveram um "boom" no início dos anos 90 —logo depois da queda do Muro de Berlim (1989). Hoje, existem programas de incentivo a jovens empreendedores em quase todos os países do Leste Europeu, onde, até o final dos anos 80, predominava uma economia estatizada.

A introdução desses programas nos antigos países socialistas, porém, enfrentou obstáculos. Na Alemanha, os primeiros programas de empreendedorismo nas escolas no leste do país encontraram muita resistência. Para muitos pais e professores, fomentar o espírito empreendedor em jovens estudantes significava levar de vez o capitalismo para as escolas da região. Hoje, não há resistências. Pelo contrário: tornou-se consenso a idéia de que participar de uma experiência empresarial dentro da escola faz com que os jovens tenham mais chances no mercado de trabalho.

Na Alemanha Ocidental, o debate dos anos 90 concentrava-se em outra questão. Por um lado, estava claro que o tema deveria fazer parte da formação geral dos estudantes. Por outro, não havia consenso sobre a melhor forma de tratá-lo nas escolas.

Os sindicatos e as empresas alertavam para o despreparo dos jovens em respeito a assuntos econômicos e reivindicavam a introdução de cursos de economia nos currículos escolares. Já os professores temiam que as disciplinas tradicionais saíssem prejudicadas na distribuição da carga horária.

A criação de programas de fomento ao empreendedorismo nas escolas, então, veio suprir essa deficiência. Hoje, a Alemanha conta com vários programas de incentivo às miniempresas. Entre eles, estão o da Fundação Alemã da Infância e da Juventude —que já assessorou mais de 150 miniempresas— e o Junior, do Instituto de Economia Alemã. Como muitos dos programas europeus, o Junior é membro da associação americana Junior Achievement e da Jayee (Junior Achievement Young Enterprise Europe).

Outro dos maiores programas europeus de fomento às empresas escolares é o britânico Achievers International, criado em 1992. No início, ele atendia apenas oito escolas na Escócia e nos Estados Unidos. Dez anos depois, já assessorava 25 mil crianças e jovens de 32 países. Seu objetivo é incentivar jovens a abrir pequenas empresas de importação e exportação, as "youth companies".

Vários projetos não têm fins lucrativos. Seu principal objetivo, dizem os organizadores, é fomentar nos jovens o sentimento de responsabilidade. Essencial para quem vai abrir um negócio.


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