SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 02/06/2003
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

A destruição criativa do empreendedor

Disposição para assumir riscos, capacidade de ousar em momentos delicados, farejar as melhores oportunidades, liderança, independência e otimismo acima de tudo, em que pese as adversidades conjunturais, a situação econômica movediça, a recessão global. Poderia listar aqui os adjetivos destinados ao empreendedor. São muitos, diversos, centenas. E todos eles enaltecem a figura desse personagem que enfrenta toda e qualquer dificuldade para abrir, tocar e consolidar seu próprio negócio. Mas não é tão simples assim, apesar da farta literatura glamourosa acerca do assunto.

A lista de obstáculos é penosa e o caminho ardiloso. Afinal de contas, se tudo correr bem, os lucros só começam a pingar depois de um ou até dois anos de atividade. Nesse período, o pequeno e médio empresário necessita ter boa reserva em dinheiro para bancar as contas e fechar a contabilidade. No início, haja saúde para suportar a carga de trabalho. Não é à toa que a falta de planejamento é responsável pela mortalidade de cerca de 30% das companhias, antes mesmo do primeiro aniversário. O verdadeiro empreendedor não dá um passo sequer sem analisar seu desafio e optar conscientemente pelas melhores trilhas. Nessa arena não há espaço para os aventureiros.

Independentemente do fôlego financeiro tão necessário quanto vital para a consolidação do negócio, como decifrar o código genético desse tal empreendedor? A ciência está preparada para dar esta resposta? Certamente não, mas dia desses li uma definição que me encantou pela sabedoria, profundidade e sensibilidade. Foi dita pela americana de origem asiática Joanna Lau, uma engenheira de computação dos Estados Unidos, que adquiriu uma companhia em dificuldade para, em seguida, reerguê-la. "Sou como um maestro, ao montar uma sinfonia. Para reger, tudo o que você precisa saber é que tipo de música deseja tocar. Depois encontra os instrumentos e músicos certos, e prossegue na afinação até produzir bela música. É assim que vejo meu trabalho." Sem dúvida alguma, trata-se de uma empreendedora da mais pura linhagem.

Essas pessoas estão fazendo enorme diferença no ambiente empresarial. Podem ter nascido empreendedoras ou serem "vítimas" da mutação turbinada pelo dia-a-dia. Em muitos casos, fazem parte de um grupo que perdeu o emprego e encontra dificuldade de se recolocar. Dessa maneira, posicionam-se como agentes transformadores de empresas e multiplicadores de postos de trabalho, sejam porque decidiram aplicar a poupança acumulada na configuração de um empreendimento ou porque utilizaram os recursos do FGTS para viabilizar a configuração de um novo negócio.

Mais do que uma boa idéia, orientação adequada e planejamento estratégico, o fenômeno empreendedorismo está engajado num processo que o economista americano Joseph Schumpeter denominou como "destruição criativa", ou seja: o empreendedor rompe com velhos hábitos, para gerar respostas imediatas às novas carências e desejos do mercado. Assim, tornam-se inventores compulsórios e, forçados a transformarem sua realidade, não se cansam nem param de produzir. Tal conceito está esmiuçado no livro "12 Histórias de Sucesso", de Gregory Ericksen, diretor executivo do Prêmio Mundial Empreendedor do Ano.

Essa tal " destruição criativa " embasa, de uma certa maneira, as justificativas em torno da popularidade que ronda o empreendedorismo, principalmente porque todo empresário de sucesso é um caso inspirador e relevante para quem quer que seja. De posse de um DNA privilegiado, empenham-se em ser arquitetos de coisas, empresas e pessoas. E de uma maneira geral, todos os empreendedores que conheci, seja aqui ou no exterior, possuem um traço em comum. Sem exceção, são realizadores contumazes, cujo maior prazer é sonhar, desenvolver e implementar aquilo que brotou como projeto do coração e da alma.

A impressão digital dessas pessoas é o êxito e a capacidade de mudarem as coisas para, na seqüência, revirarem a empresa do avesso. Às vezes, tem-se a impressão de que a história de vida desses empresários ganha dimensão romanceada, com pílulas de dramaticidade e final feliz. Talvez haja mesmo, embora exista uma série de casos de iniciativas (boas) que ficaram pelo caminho. Convém relembrar, no entanto, que a história é retratada pelos vitoriosos e, para despertar um diferencial, essa gente precisa ser diferente onde quer que se olhe, seja para vender óculos, alfinete, refrigerante ou computador.

Por mais que exista o componente genético no comando das ações, empreender, porém, é uma arte que leva tempo, requer estudo, preparo e foco naquele objetivo que se pretende atingir. Essa trajetória está sujeira a erros, armadilhas, equívocos. Mas é nesse exato instante que se faz à seleção natural e se divide entre os que são e os que não são empreendedores. O legítimo vai aprender com as crises e utilizar-se da sua vocação para transformar as dificuldades numa nova oportunidade de negócio, com habilidade, persistência e sorte. Os outros sucumbirão. Para aqueles que não crêem na força desse movimento e a consideram uma peça de retórica, fica aqui um recado: o empreendedor reiventa idéias, conceito e pessoas, ainda que falte conhecimento científico sobre a essência do tema.

*Julio Sérgio Cardozo é presidente da Ernst & Young.


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