SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 02/06/2003
Autor: Otto Filgueiras
Fonte: Gazeta Mercantil

Domenico De Masi: ócio, sem preguiça, libera para a criação

Espírito inquieto, o sociólogo Domenico De Masi, além de sua especialidade, o trabalho, fala das coisas do mundo. E mostra fé no Brasil.

Nascido em 1938 em Perugia, na Úmbria, Itália, Domenico de Masi, além de consultor de empresas, é professor e diretor da Faculdade de Ciências da Comunicação na Universidade La Sapienza, em Roma. Publicou 30 livros, com mais de meio milhão de cópias vendidas em todo mundo, incluindo o Brasil, onde foram traduzidos "A emoção e a regra", "O futuro do trabalho", "A sociedade pós-industrial", "Ócio criativo" e o último, "Diálogos Criativos", em co-autoria com o dominicano brasileiro Frei Beto.

Na entrevista a este jornal ele fala sobre as mudanças que precisam ocorrer na concepção do trabalho dentro das empresas e também das vantagens que as sociedades latinas têm para implantar seu modelo de vida e trabalho em relação a sociedade norte-americana consumista, que, ele entende, começa a sua decadência.

Sugere que os empresários brasileiros deixem de lado a filosofia norte-americana – a da competitividade. É difícil fugir de tal ideologia, admite, pois ela provem de um país vencedor no plano econômico, mas não no social.

Admirador do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, De Masi diz que o novo governo brasileiro foi eleito não como opção, mas uma necessidade, porque o País não podia continuar sem tentar criar mecanismos de welfare ou sem reformas. "A desigualdade e a injustiça social são a loucura do Brasil". E, segundo ele, sem reformas, o Brasil será um país destruído. Não pela competitividade externa, mas pela violência, pela desigualdade interna.

"Se o Brasil resolvesse a questão da miséria interna – a pobreza e o analfabetismo –, teria um mercado de 170 milhões de pessoas, de tamanho quase igual ao do norte-americano e não precisaria estar preocupado em exportar a qualquer custo. O atual governo brasileiro, sintetiza, precisa fazer a opção: "Ou você vive em um país livre, ou vive em um país coloni-zado".

A seguir os principais trechos da entrevista.

Gazeta Mercantil - O senhor sustenta em seus livros e em entrevistas que estamos vivendo a fase pós industrial em que a tecnologia e as máquinas substituem a maior parte dos afazeres humanos, Por isso, defende que os homens, sejam eles trabalhadores intelectuais ou manuais, e principalmente empresários e executivos de empresas, devem trabalhar menos horas e dedicarem-se mais ao lazer, que denomina de "ócio criativo". O que é exatamente isso?

De Masi - Não entendo o ócio como inércia, preguiça, mas como a capacidade de juntar o estudo, o trabalho e a diversão. Nesta conversa nossa estamos praticando o estudo e o trabalho; se acrescentarmos alguma diversão, estaremos praticando o ócio criativo. Unir aquelas três atividades é a única forma de produzir idéias novas... e a criatividade é a coisa mais importante para o homem pós-industrial. Em suma: o ócio criativo é a base da criatividade.

Gazeta Mercantil - Por que o senhor crítica o modelo de sociedade norte-americana e elogia as sociedades latino-americanas?

De Masi - Eu acredito que o mundo, hoje, se depara com dois fundamentalismos. De um lado, o islâmico, de fundo religioso e o norte-americano, do tipo consumista, materialista. Então temos dois extremismos: um que quer impor uma visão religiosa do Islã fundamentalista; outro que quer impor a visão materialista da América consumista. Assim, os dois modelos são caracterizados por uma forte sentimento de vida interior e vida exterior. O modelo latino é muito mais equilibrado. É um modelo que deriva da experiência grega, da experiência latina, da experiência do Renascimento. Que faz toda a diferença na Espanha, em Portugal, no Brasil, no Chile e na Argentina. Somos portadores de um modelo de vida baseado muito mais na sensualidade, na alegria, na hospitalidade, na oralidade - essa necessidade de falar, de expressar sentimentos. Para o mundo, neste momento, esse modelo latino de ser é muito mais necessário que o islâmico ou o norte-americano.

Gazeta Mercantil - De que forma os povos latinos poderiam enfrentar o poderio norte-americano?

De Masi - Na história da Humanidade, os modelos hegemônicos sempre tiveram nos calcanhares modelos novos, pacíficos. O modelo romano era baseado no Império, sustentado por exércitos, pela força, até pela imposição da língua latina a todo o mundo. Surgiu então o Cristianismo, muito mais equilibrado, humanístico. Ao fim esse modelo, pacífico, venceu os exércitos. Se enfrentarmos o exército norte-americano com outro exército, perderemos. Se enfrentarmos o modelo americano com o modelo latino, o nosso vence, por ser mais humano.

Gazeta Mercantil - O senhor considera o modelo norte-americano de sociedade decadente?

De Masi - Esse modelo está baseado em um conceito de imperialismo suave, leve, soft. Imposto, sobretudo, através do cinema, televisão, internet, bancos de dados, literatura: enfim, um imperialismo cultural. Como o do império romano, que utilizava o teatro clássico... que ficou eterno. Atualmente e depois de Bin Laden, o imperialismo americano passa da forma soft à strong, à forma armada, militar. Nessa passagem é que começa a decadência.

Gazeta Mercantil - De que forma o Brasil e outros países latino-americanos podem se contrapor as exigências feitas pelos EUA para a constituição da Alca?

De Masi - O Brasil pode ser atrasado do lado econômico, mas não culturalmente. Os Estados Unidos não têm literatura, música, filosofia ou antropologia melhores que as brasileiras. Da mesma forma, que não têm melhores que as italianas - incluindo aí design e moda. Tudo o que envolva emotividade, ética e estética, está muito mais avançado no Brasil, Itália, França, Espanha, Portugal, Chile que nos EUA. A América do Norte levou a democracia a alguns países e a ditadura a outros. No Brasil e Argentina, por exemplo, apoiou a ditadura: ao Chile, levou a ditadura. Enfim, leva a democracia onde havia a ditadura, mas levou a ditadura onde havia democracia. O ponto forte seria conseguir um equilíbrio.

Gazeta Mercantil - Na questão comercial, qual são as chances de países como o Brasil competirem com mais igualdade com os EUA e Europa?

De Masi - O problema brasileiro não é o da competitividade com o exterior, mas de equilíbrio interno. Aqui há ricos muito ricos e pobres muito pobres, uma burguesia incapaz de criar um estado de welfare avançado, que resgate a parte miserável da população. Se o Brasil resolvesse a questão da miséria interna – a pobreza e o analfabetismo –, teria um mercado de 170 milhões de pessoas, de tamanho quase igual ao do norte-americano.

Gazeta Mercantil - Os executivos e empresários brasileiros têm essa consciência? Ou se parecem com os norte-americanos, em busca do vencer por vencer?

De Masi - Os dirigentes brasileiros, como os europeus, carregam uma única filosofia, a norte-americana – a da competitividade. Falam inglês e mesmo quando usam a língua nativa, encaixam a todo momento termos ingleses. Toda a literatura de gerenciamento de negócios é norte-americana. Assim como a Europa levou ao mundo o cristianismo, pelas mãos de missionários, os EUA levam agora, por meios dos gurus, a filosofia nos negócios.

Gazeta Mercantil - O senhor identifica os empresários do Brasil dominados por essa ideologia?

De Masi - Todo o mundo está dominado, mesmo Itália, França ou Espanha. É difícil fugir de tal ideologia, pois ela provem de um país vencedor no plano econômico. No econômico, não no social, pois têm 30 milhões de pobres e sete milhões de sem-teto, dois milhões de pessoas encarceradas. No fim, 4% da população não têm direitos, porque a América não soube criar um modelo social vencedor. A competitividade produz riqueza, mas também a solidariedade produz riqueza. O Brasil troca a competitividade, a loucura da competitividade, pela violência. Troca-se a não competitividade pela auto-reclusão. Não se pode sair por São Paulo com a mesma tranqüilidade com que se pode sair em Roma, a qualquer hora do dia ou da noite.

Gazeta Mercantil - O senhor sustenta que as máquinas substituindo o homem, para dar a esse mais tempo livre. Mas no caso do Brasil, como contrapor essa liberação ao desemprego?

De Masi - Apenas para o trabalho intelectual não há horários, a pessoa está sempre à disposição, mesmo enquanto dorme ou assiste a um filme. As máquinas estão substituindo os humanos nas tarefas repetitivas. Isso pode ser visto de dois modos. Um deles é ajudar a diminuir as jornadas de trabalho. Uma pessoa que trabalha dez horas por dia, se trabalhasse cinco, abriria uma vaga para outro trabalhador que trabalhasse as mesmas cinco horas. Todos os países que têm taxa de desemprego baixa utilizam fartamente os trabalhadores de tempo parcial. Na Dinamarca, por exemplo, que tem 4% de desemprego, 36% dos trabalhadores estão no regime de part-time. Na Inglaterra, os índices são de 5% e 22%, respectivamente; nos Estados Unidos, 6% e 20%. O desemprego não deriva de pura rejeição ou do progresso tecnológico, mas do uso que fazemos do progresso tecnológico. Cada vez que introduzimos uma nova máquina em nova empresa, podemos reduzir o tempo de trabalho. Nós, ocidentais, não sabemos distribuir nem o trabalho, nem a riqueza, nem o poder. O comunismo real, da antiga União Soviética, de Cuba, soube distribuir a riqueza, mas não aprendeu como produzi-la.

Gazeta Mercantil - A redução da jornada de trabalho sem redução de salário - algo que ainda não se conseguiu no Brasil - seria uma saída para resolver a questão do desemprego?

De Masi - Certamente. Com menos horas de trabalho, produzimos mais. E a virtude da diminuição do tempo é aumentar o salário.

Gazeta Mercantil - Como o senhor vê o governo Lula?

De Masi - Vejo-o não como uma opção, mas como uma necessidade. O Brasil não podia continuar sem tentar criar mecanismos de welfare ou sem reformas. É uma loucura que existam proprietários com milhares e milhares de hectares de terras de um lado e os sem-terra de outro. É um absurdo que convivam poucas pessoas muito ricas com as favelas. Como é um absurdo que se encontre grandes intelectuais ao lado de analfabetos. A desigualdade e a injustiça social é a loucura do Brasil. Sem reformas, o Brasil será um país destruído. Não pela competitividade externa, mas pela violência, pela desigualdade interna.

Gazeta Mercantil - Então, ele teria que fazer a reforma agrária, tentar diminuir a desigualdade na distribuição de renda?

De Masi - Ou você vive em um país livre, ou vive em um país colonizado. O governo Lula não tem alternativas: deve fazer as reformas, para que o País não entre em falência. E deve fazê-las rapidamente. Porque, se esperar muito, os conservadores podem engolir o novo governo, como fizeram com o de Fernando Henrique Cardoso.

Gazeta Mercantil - Há críticas de que o governo Lula faz a mesma política econômica de Fernando Henrique. O senhor concorda?

De Masi - Não, não concordo. Lula está é preparando as reformas.

Gazeta Mercantil - Qual é a abertura que o Brasil deveria ter com o mundo?

De Masi - Neste momento, Lula é o chefe de governo mais estimado do mundo. Acredito mesmo que perde apenas para o Papa. Dos dirigentes internacionais – Bush, Chirac, Blair ou Schroeder, nenhum deles tem o carisma ou estima que Lula desperta. Isso é uma grande força que deve ser utilizada para fazer o que deve ser feito.

Gazeta Mercantil - Como o senhor, italiano, vê o apoio de seu governo aos EUA na invasão e ocupação do Iraque?

De Masi - Temos hoje um governo muito diferente das massas, que apoiou os EUA tendo 70% da população contra essa medida. É um governo que anda em direção contrária à vontade do povo italiano. Num primeiro momento (o primeiro-ministro) Berlusconi estava pronto para entrar na guerra o lado dos EUA – como fez José Maria Aznar, na Espanha. Em um segundo momento, frente às manifestações do povo italiano contra a guerra, recuou, assumindo a posição de aliado nas Nações Unidas, não dos Estados Unidos.

Gazeta Mercantil - Seu povo enfrentou no passado, o fascismo; o Brasil, a ditadura militar. Como se encaixaria a teoria do ócio em regimes assim, duros e supostamente disciplinadores?

De Masi - Como disse no início, ócio criativo não significa inércia ou preguiça, mas a capacidade de unir trabalho, estudo e diversão. Os italianos antifascistas eram capazes de trabalhar, estudar e divertir-se simultaneamente. Quando consegue isso, um país está destinado a um grande futuro. No Brasil, a ditadura militar expulsou todos os opositores: Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso, Oscar Niemeyer, José Serra... tantos intelectuais. Esse mal, ao fim, transformou-se em bem. Pois essas personalidades, no exterior, ganharam uma visão universal, planetária, internacional do Brasil. E também aprenderam a dialogar entre si, mesmo com pontos de vista diferentes. Ao retornarem ao país, esses homens transformaram-se em uma classe dirigente de altíssima qualidade. Nas últimas eleições, os dois candidatos principais brasileiros – Lula e José Serra – eram dessa qualidade, acima da de Al Gore e Bush, dos Estados Unidos.

Gazeta Mercantil - Então, os brasileiros não precisam copiar lideranças estrangeiras?

De Masi - Ao contrário. Os Estados Unidos é que precisam copiar os brasileiros. Não tiveram lá um líder como Fernando Henrique Cardoso, superior a Clinton ou Lula, superior a Bush.


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