SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 21/10/2003
Autor: Marcia Furlan
Fonte: O ESTADO DE SÃO PAULO

Um país, vários pólos têxteis

GOIÁS QUER SER O PRINCIPAL PÓLO BRASILEIRO

A vocação brasileira na área de confecções gerou o aparecimento de diversos pólos produtores. De todos os elos da cadeia têxtil, que vão desde os produtores de fibras, fiação, tecelagens/malharias, beneficiadores (tinturaria/estamparia) e confecções - estas são as mais pulverizadas. A Abit destaca pelo menos 12 grandes conglomerados confeccionistas, mas ressalta que há empresas espalhadas por todos os Estados e territórios.

Em Goiás, onde o governo empenha-se em transformar o Estado no principal pólo brasileiro - hoje ocupa o quarto lugar, atrás de SP, PR e MG - as confecções locais vem se expandindo. Entre 2000 e 2002, o faturamento cresceu 40%, totalizando R$ 200 milhões.

Várias medidas contribuíram para isto, mas alterações na área tributária foram preponderantes. O mecanismo da substituição tributária (o ICMS é recolhido apenas quando o tecido entra no Estado e possibilita um crédito posterior do imposto pago no Estado de origem) estimula empresas locais a elevarem o valor agregado do produto. Com isso, a arrecadação do setor dobrou desde 2001.

Vaivém - O projeto do governo, de acordo com o presidente da Associação Goiana da Indústria de Confecção (Agicon), Frederico Martins Evangelista, é reunir todos os elos da cadeia no Estado. Atualmente, o algodão produzido ali - Goiás é o segundo maior produtor do Brasil, com 130 mil toneladas por ano - viaja a São Paulo para se transformar em tecido e depois volta para virar roupa em Goiás. Daí sai novamente para outros Estados, principalmente do Norte, Nordeste e o Centro-Oeste: só 10% da produção fica nas lojas goianas.

Neste sentido, já foi desenhado um programa de atração de empresas e as negociações com gigantes da área de tecelagem estão em curso, seja para instalação de unidades fabris, seja em forma de parcerias com empresas locais. Segundo dados da Agicon, Goiás tem 4,6 mil confecções formais e outras 4 mil informais. O carro-chefe do Estado é o jeans, mas a produção de roupas femininas, finas e de malha, tem forte representação, assim como roupas infantis.

Biquínis - A chamada "moda-piscina", embora contribua com apenas 10% do movimento anual do setor, ganha notoriedade até fora do Brasil. Há duas confecções goianas já instaladas em Miami. O produto é um dos principais da balança comercial do Estado, junto com o jeans. No ano passado, as exportações atingiram US$ 1 milhão e tiveram como principais destinos os EUA, Caribe e a Europa, principalmente Itália, Alemanha e França.

De acordo com Evangelista, a demanda tanto interna como externa cresce, mas as confecções não têm capacidade para atender. Vários problemas contribuem para isto. Ele cita a lei trabalhista, que penaliza fortemente a atividade, marcada pela mão-de-obra intensiva, e a burocracia. Como 95% das confecções são microempresas - a empresa que mais produz contabiliza 100 mil peças por mês - elas perdem-se em uma infinidade de exigências administrativas, que as obriga até a contratar profissionais ou empresas para cuidar das áreas tributária e jurídica, cujo custo é incompatível com seu porte. "É difícil ser pequeno e médio no Brasil", diz.

Evangelista lembra ainda as dificuldades de acesso ao crédito que fomentariam a atividade, sobretudo com relação à tecnologia. Ele argumenta que as necessidades de recursos não são grandes. Em outubro do ano passado foi encerrada uma linha de financiamento da Caixa Econômica Federal que nos 22 meses em que vigorou liberou R$ 7 milhões e atendeu a 350 empresas. O limite era de R$ 20 mil e a inadimplência, segundo ele, ficou próxima a zero. "Várias empresas estão acabando de pagar o financiamento agora e queriam tomá-lo novamente", argumenta.


SÃO APULO E MINAS AINDA SÃO OS CENTROS MAIS IMPORTANTES

O Estado de Minas Gerais hospeda o segundo maior pólo brasileiro em faturamento. São cerca de 5 mil empresas espalhadas por duas regiões. No sul do Estado, está localizado o conhecido circuito da malha, que se destaca pela produção do tricô, principalmente blusas de frio. Nos arredores de Juiz de Fora, predomina a moda íntima. São Paulo é o principal fabricante brasileiro de vestuário, com cerca de 15 mil empresas, distribuídas por várias regiões e atuando em todos os segmentos. Na capital, os centros de produção do Bom Retiro e do Brás dispensam apresentações. Há ainda concentrações na região de Sorocaba, Americana e São José do Rio Preto.

Os quatro Estados da Região Sudeste, incluindo o Espírito Santo que tem perto de 1.500 pequenas indústrias fabricantes de 'modinha' (do dia-a-dia), roupa esportiva e masculina, representam mais da metade do que se produz no País, mas os demais conglomerados não podem ser ignorados. Entre eles está o Ceará, com 2.600 empresas distribuídas por quatro cidades que se especializaram na produção de artigos de moda íntima e praia.

No interior de Pernambuco existem outras 6.000 fábricas, produtoras de moda íntima, jeans, surfwear. No Sergipe, na região de Tobias Barreto, conta-se 1.300 confecções. Há ainda os já conhecidos pólos de Rio Grande do Sul, famoso pelo tricô, e o de Santa Catarina, com cerca de 6.000 indústrias, produtores de malharia circular.

Neste Estado estão também as gigantes da área de cama, mesa e banho, no Vale do Itajaí. São empresas mais antigas, com processos fabris desenvolvidos, dirigidas freqüentemente por descendentes dos imigrantes europeus que colonizaram a Região Sul.


ADMINISTRAR ESTOQUES É O DESAFIO

A década de 90 foi um período que pode ser considerado como divisor de águas na história brasileira do setor têxtil. Além das conseqüências da abertura comercial, que afetou fortemente o mercado, a estabilidade econômica alterou profundamente as formas de gestão das empresas.

De acordo com o consultor da área de marketing e moda, Silvio Chadad, antes os empresários ganhavam dinheiro com aplicações financeiras e os estoques funcionavam como operações de proteção. Com a estabilização, estes instrumentos deixaram de existir e algumas empresas estão até hoje tentando acertar o passo. Para agravar ainda mais a situação, teve inicio a era da informação, que escancarou e potencializou a concorrência.

Hoje, de acordo com Chadad, os mesmos estoques guardam o segredo de empresas eficientes e lucrativas, mas o esforço é para que sejam os mais reduzidos possível. O desafio delas agora é conseguir uma competência cada vez maior na sintonia entre expectativas de vendas e os resultados concretos, porque isto determina o tamanho dos depósitos e por conseqüência as margens de lucro. A estratégia é trabalhar com pequenas quantidades estocadas, realizar um planejamento da produção e buscar as informações que possam ajudar nestas previsões.

Outra tendência que deve ser seguida pelas empresas, na sua opinião, é a eliminação da sazonalidade das coleções. Para ele, as substituições de peças tem que ser constantes, pois são as novidades que alavancam as vendas. "O que ajuda é o novo, mudar sempre, trocar vitrine", argumenta. "É preciso ter mais variedade e menos quantidade."


NO CORREDOR DA MODA PARANAENSE, DO JEANS AO BONÉ

O jeans é o carro-chefe do pólo localizado na região norte e noroeste do Paraná, considerado um dos mais importantes parques industriais do País. De lá sai quase toda a produção que abastece redes como Ellus, Zoomp e Forum. Trata-se de um corredor de 100 km que envolve as cidades de Maringá, Londrina, Apucarana e Cianorte, cuja produção chega a 130 milhões de peças por ano e o faturamento bate os R$ 2 bilhões. As cidades formam também o chamado corredor da moda. Existem ali 12 centros atacadistas e mais um está em construção em Maringá, com 160 lojas.

Das 4 mil confecções existentes no Paraná, cerca de 2 mil estão neste pólo. São desde tecelagens até lavanderias, fabricantes de materiais de acabamento, confecções propriamente ditas e até mesmo produtores de seda. Além do jeans, que responde por cerca de 70% do faturamento, as empresas da região atuam também nos segmentos de malharia, infantil, lingerie, moda praia e a chamada modinha (roupas do dia-a-dia). Marcas conhecidas de lingerie, como a Reco, e de jeans, como Pura Mania, Osmose (jeans), Kez (fitness), Titus (jeans), Lado Avesso (jeans), Camisaria Nacional.

O pólo é também um importante produtor de bonés e hospeda um consórcio de exportação que reúne 10 empresas, sediadas em Apucarana, com capacidade de produção de 1 milhão de unidades. Um dos maiores clientes é os Estados Unidos, que compram o artigo do Brasil para compor os uniformes de seus times de diversas modalidades esportivas. Algumas empresas locais também produzem para equipes de Fórmula 1 e os promocionais. Em todo o pólo, são cerca de 200 fabricantes de bonés, que produzem 5 milhões de unidades por mês.

De acordo com o coordenador do projeto de apoio a indústria do vestuário do Sebrae-PR, Paulo Di Chiara, os produtos brasileiros concorrem em condição de igualdade com os da Coréia e Porto Rico, em razão de seu preço competitivo. Mas as empresas locais precisam ainda investir muito em tecnologia para se capacitarem a atender o mercado externo, que exige regularidade de fornecimento, por exemplo, e vencer a resistência dos fabricantes. “Exportar para a pequena empresa ainda é um mito”, argumenta Di Chiara.

A preocupação do Sebrae, disse ele, é preparar estas empresas para a Alca. Os bonés brasileiros sofreriam forte concorrência dos fabricados na América Central, que têm grande expertise na área, além de tradição no comércio com os EUA.

O Paraná é o segundo maior pólo confeccionista brasileiro em produção e o terceiro em faturamento, depois de São Paulo. Além da região de Maringá, a grande Curitiba também destaca-se na área de malharia retilínea, as conhecidas blusas de tricô. Já existem no Estado oito cursos de moda de nível superior. Das cerca de 4 mil indústrias paranaenses, apenas 70 ou 80 exportam, mas de forma irregular. Em 2002, foram US$ 1,7 bilhão em vendas externas.


NOVA FRIBURGO, PÓLO DE MODA ÍNTIMA

No segmento de moda íntima, o pólo de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, é considerado o maior do País, responsável pelo abastecimento de 25% do mercado brasileiro, que consome em média 600 milhões de peças por ano. Um levantamento do Sebrae-RJ constatou a existência de 820 empresas, sendo 75% micro ou pequenas. O forte é a chamada lingerie dia, responsável por 70,2% do que sai das linhas de montagem. Os modelos sensuais representam 14,4% e os de noite, com 6,37%. O restante é dividida entre moda aeróbica e infantil.

O pólo fatura em média US$ 200 milhões por ano e começa a receber investimentos para fortalecer sua participação no mercado mundial. Um projeto recente desenvolvido em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Agência de Promoção às Exportações (Apex) prevê um aporte de R$ 7,6 milhões para capacitar as confecções do setor. A meta é exportar US$ 36 milhões até 2004.

O programa, que envolve seis consórcios compostos por 56 micro e pequenas empresas, registra movimento de R$ 2,6 milhões por mês com a comercialização de 20 milhões de peças, destinadas principalmente aos Estados Unidos. Uma das tarefas a serem perseguidas pelas empresas do pólo, revelou o estudo do Sebrae, é adequar os produtos às exigências internacionais, com relação ao design e modelagem, a fim de ampliar este mercado.

Foi o que fez por exemplo a Pêra Verde. Na feira anual de negócios do ano passado, a empresa fechou seus primeiros contratos de exportação, negociando com representantes norte-americanos, franceses e dinamarqueses. De acordo com a diretora Débora Moraes, para a Dinamarca a empresa precisou fazer várias adaptações nos moldes para adequar as peças ao corpo das européias, mas as vendas compensaram o investimento. A empresa está tentando agora estreitar relações com outros países.

Internamente, um dos problemas enfrentados é a concorrência com as grandes companhias nacionais do setor, no mercado há mais tempo e com maior poder de fogo na área de distribuição e logística. Esta área é um dos principais focos das empresas de Friburgo no momento, pois são a arma também para concorrer com os produtos asiáticos de baixo valor agregado que disputam este mercado.


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