SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 01/12/2003
Autor: Diário Catarinense
Fonte: Diário Catarinense

Conjuntura: 'Teremos dificuldade para crescer'

Entrevista: Idaulo José Cunha, economista

O economista catarinense Idaulo José Cunha, 65, trabalha no momento na revisão da segunda edição de seu último livro, "Aglomerados industriais de economias em desenvolvimento", no qual faz um levantamento na tentativa, como ele diz, "de contribuir para orientar políticas econômicas".

Autor de seis livros, incontáveis artigos e colaborações em jornais e revistas especializadas, o professor Idaulo, como também é conhecido, tornou-se um porta-voz respeitado em todo o país devido aos prognósticos que faz sobre os rumos da economia catarinense e do país, ao qual se dedica há 30 anos. Por conta disso, ele prepara-se para relançar no próximo ano seu primeiro trabalho, "Evolução econômico-industrial de Santa Catarina", esgotado há muitos anos e que tornou-se obra de forte penetração nos círculos acadêmicos, sendo utilizado como texto em disciplinas de economia, história e sociologia.

Ao avaliar as perspectivas da economia catarinense para o próximo ano, Cunha recorre ao estudo que produziu nos anos 90, que mostrou alguns indicadores do desenvolvimento industrial do Estado no período projetado 1997-2004. "Já em 1999 nos detectamos que a maior parte dos investimentos estava sendo destinada para a região liderada por Joinville e Jaraguá do Sul, enquanto a região liderada por Blumenau a partir de 1995 começou a perder fôlego. Por isso acredito que vai ser sobretudo na periferia da região Nordeste de Santa Catarina que poderemos ter boas expectativas de desenvolvimento da indústria, especialmente dos setores mais dinâmicos", analisa Cunha. Sobre estes e outros assuntos o professor Idaulo Cunha falou ao Diário Catarinense.


Rumos da economia



"Acompanho a trajetória da economia catarinense e do seu setor motriz, a indústria de transformação. Estou perplexo diante do comportamento anômalo nos últimos sete trimestres, caracterizado por decréscimos contínuos da produção física. Dentre as razões que provocaram a inédita involução da indústria catarinense atrevo-me a citar: a abertura voluntariosa do mercado brasileiro, a adoção de relação de câmbio artificial, a incapacidade de execução de políticas comerciais e a absoluta falta de política industrial. Setores sensíveis como têxtil e o de vestuário sofreram e estão sendo dizimados paulatinamente."


Receita para crescer



"O governo não pode se eximir da prática de políticas econômicas ativas. Valorizar demais o real, num mundo em nítida recessão, seria uma decisão no mínimo desastrada, para um país que não tem poupança interna, que necessita gerar elevadas somas de divisas para honrar os compromissos externos e que não deseja assumir riscos com a adoção de políticas heterodoxas."


Chapecó



"Fiquei frustrado em relação às expectativas de sucesso que nutri, quando um poderoso grupo empresarial argentino assumiu o comando da Chapecó. A solução hoje é complexa e deve satisfazer não só as expectativas dos fornecedores integrados às diversas unidades industriais, mas também a sociedade como um todo, que em última instância pagará os quase certos prejuízos."


Projeção para 2004



"No imprevisível mundo atual, que caminha em direção à sociedade do conhecimento, que tem subjacente uma clara mudança de trajetória tecnológica e organizacional, fazer previsões, mesmo que em curto prazo, é uma temeridade. Diria, mesmo assim, que Santa Catarina terá dificuldade de superar o ritmo de crescimento da indústria brasileira, enquanto não assumir posições firmes em relação ao processo espontâneo e inadequado de reestruturação do complexo têxtil-vestuário, que ainda representa um quinto de toda a produção industrial catarinense. O início de operação das novas unidades de produtos siderúrgicos e de vidros trará reflexos positivos na geração de receitas. Um bom desempenho da indústria em 2004 dependerá também da continuidade do bom comportamento das indústria de metal-mecânicas e da recuperação do segmento de agroindústrias e de matérias plásticas."


Os maiores avanços



"É preciso realçar o papel crucial não só da escolaridade, mas também da educação e do preparo permanente do nosso capital humano, para que se possa participar como ator de primeira linha da sociedade do conhecimento. Friso: Santa Catarina já avançou muito em relação à exploração das vantagens competitivas convencionais, com mão-de-obra abundante e com pendores para operar nas lides industriais; ao uso de recursos naturais e ao aproveitamento de vantagens passivas resultantes da mera concentração de empresas, em seus arranjos produtivos regionalizados. Considero que os investimentos em educação e em inovação dos processos de aprendizagem merecem os mais elevado graus de prioridade e vou mais longe: os melhores cérebros do Estado deveriam ser arregimentados para efetivamente se promover uma mudança radical na capacitação dos catarinenses. Só com saltos nos níveis do saber trilharemos o caminho pontifício para o ingresso na sociedade do conhecimento, o que mudaria o perfil da nossa indústria."


Capital externo



"A transferência do patrimônio industrial para investidores de fora do Estado assinala uma ruptura do "modelo catarinense de desenvolvimento"e que em boa parte pode ser debitada à carência de políticas nacionais de fortalecimento do empresário brasileiro. Outros motivos podem ser enunciados, como os derivados da sucessão na gestão das empresas. É inegável que a globalização passou a exigir escalas crescentes para alguns setores, sobretudo em relação a cadeias internacionais de comercialização de produtos como os agroindustriais e, portanto, a desestadualização de algumas empresas também pode ser debitada a este imperativo. Alerto, contudo, que nenhum país pode prescindir de um forte empresariado nacional. A presença de capital não estadual na economia catarinense exige uma avaliação profunda e isenta de pendores ideológicos. Há muitos casos de empresas que se encontravam com dilemas existenciais, tais como crises de sucessão, associadas à falta de recursos para promover ambiciosos programas de investimentos e, noutra ponta, cita-se a passageira e malograda atuação do grupo que assumiu a Chapecó. A grosso modo, o balanço deverá ser positivo, diante da falta de uma política que destaque o fortalecimento do empresário nacional."


Papel da indústria



"Mesmo numa fase de ingresso irreversível na nova economia ou na sociedade do conhecimento, o setor industrial catarinense poderá, por muito tempo, desempenhar função ativa no desenvolvimento do Estado. Contudo, as políticas pró-ativas que venham a ser seguidas exigem uma visão múltipla, que envolva os governos federal e estadual e a sinergia de esforços destes com empresários. Outra linha mestra é a de priorizar a inovação tecnológica e o aprendizado no interior de redes de empresas e de aglomerados industriais que valorizam as competências regionais. Três grandes linhas podem servir de orientação aos responsáveis pelas definições de estratégias de industrialização: a reconversão dos setores tradicionais fragilizados, ai incluindo políticas voltadas ao soerguimento de empresas, a revitalização da competitividade dos setores dinâmicos e mais avançados tecnologicamente e a atração seletiva de novos investimentos capazes de complementar e adensar os aglomerados de indústrias aqui de Santa Catarina."


Eficiência coletiva



"Necessitamos entrar na onda da economia flexível, lastreada na cooperação técnico-produtiva e tecnológica no interior dos nossos aglomerados industriais e de serviços, na ação conjunta, inclusive dos agentes de fomento estatais, em busca da eficiência coletiva. Um imperativo é o da mudança do foco das ações governamentais para o agrupamento de empresas e seus fornecedores de insumos e de serviços, ao invés de se continuar operando sob a óptica do projeto individual ou da empresa isolada. Alerto que o Estado já está sentindo o peso da indiferença do governo Federal em relação as suas legítimas demandas, dentre as quais agiganta-se o caso de protelação do projeto de duplicação da BR-101, que cada vez diminui a competitividade da economia sulina e de todo o Estado. Ocorre o mesmo com rodovias no Vale do Itajaí e no de Itapocu."


Desenvolvimento regional



"A concentração dos investimentos industriais no Nordeste do Estado implica numa ampliação na fratura de um dos pilares da economia catarinense: a boa distribuição territorial das atividades econômicas no território estadual. Alerto que não se deve inibir o potencial de desenvolvimento do Nordeste do Estado, ao contrário, cabe estimulá-lo mais. A boa política industrial regional é a de estimular, simultaneamente, as regiões menos dinâmicas e em dificuldade de adaptação ao novo modelo econômico."


SC e a Alca



"O Brasil e Santa Catarina não podem ser pegos de surpresa, no contrapé. Não há lugar para amadorismo e muito menos para gatos rugirem simulando leões. As negociações são entre desiguais, há assimetria de poder e de competência. Não se espere que os EUA sejam ingênuos e deixem de defender seus setores frágeis diante do potencial de concorrência dos novos parceiros comerciais."

Têxteis

"As indústrias têxteis e de vestuário não têm sido assediadas pelo capital externo no país pela falta de atratividade e de bem definidas estratégias corporativas das multinacionais estrangeiras e da arquitetura das cadeias mundiais de suprimento, as quais não preceituam a assunção do controle do capital."


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