SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 08/06/2004
Autor: Valor Online
Fonte: Valor On-line

Centros de Excelência

Apesar dos investimentos em ciência e tecnologia representarem apenas 1,2% do PIB

No Brasil, a continuidade de políticas de estímulo à inovação e à excelência nunca foram marcas registradas dos governos - estima-se que, hoje, os investimentos em ciência e tecnologia não passem de 1,2% do PIB . Apesar disso, o país tem centros de excelência de nível internacional. Ou seja, "centros de pesquisa ou de desenvolvimento de tecnologias com resultados efetivos, reconhecidos nas suas áreas de atuação por empresas, academias, fóruns nacionais ou internacionais", na definição de Vanda Scartezini, ex-secretária de política de informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, associada da Polo Consultores Associados, especializada na gestão de conhecimento.

Ou, nas palavras de Aderbal Alves Borges, diretor de desenvolvimento de negócios da FITec Inovações Tecnológicas, "organismos que possuem pessoal de elevada competência, que trabalham com tecnologias no estado-da-arte, buscando desenvolver tecnologias novas, avançadas, compatíveis com as necessidades do mercado, com retorno financeiro e que visam o bem-estar da sociedade".

Mas são padrões de qualidade internacionalmente aceitos que medem o grau de excelência de empresas, centros e instituições de pesquisa e desenvolvimento, explica Arthur Catto, superintendente do Instituto de Pesquisas Eldorado, de Campinas. Padrões reconhecidos como o Capability Maturity Model for Software (CMM), ou o Capability Maturity Model Integration (CMMI). Uma certificação de qualidade como a ISO 9001, diz Catto, é uma norma para gestão da qualidade em qualquer ramo de atividade.

Quanto ao CMM, é um modelo específico para a qualidade no desenvolvimento de software, que define cinco níveis de maturidade na capacidade de desenvolvimento de software. Com exceção do nível 1, que corresponde à inexistência de um sistema da qualidade, cada nível especifica práticas para a gestão e engenharia dos projetos de software, bem como práticas organizacionais para possibilitar o desenvolvimento de tais projetos, com o nível de qualidade desejado.

Estima-se que no Brasil existam 26 empresas certificadas com CMM - 16 estão no Estado de São Paulo, oito na região de Campinas. Obtiveram nível 2, entre outros, o Eldorado, Tele Design, Stefanini, Fundação CPqD, Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar). Têm nível 3, Motorola, Ericsson, Ci&T. A IBM tem certificação CMMI. Segundo Vanda Scartezini, é difícil vender software a empresas internacionais sem CMM: "Para o comprador, a certificação é uma espécie de garantia de controle do que vai sair da contratação do serviço de desenvolvimento.

É basicamente por isso que a Índia tem, hoje, a maior quantidade de CMM do planeta. Não quer dizer que a Índia tenha produtos de qualidade, mas que ela responde com qualidade à demanda de produção dos softwares contratados", explica.

A certificação exige tempo e dinheiro: numa organização de porte médio, a implantação da ISO 9001 demanda de oito a 12 meses, e investimento em torno de R$ 300 mil; no CMM, a implantação de cada nível de maturidade requer em torno de 2 anos, e investimento da ordem de R$ 900 mil. Em função disso, diz Vanda, a Softex, em conjunto com ministérios, está procurando garantir que a certificação seja colocada à disposição das empresas, a baixo custo, viabilizando sua disseminação no setor de software brasileiro.

Para Eduardo Moreira da Costa, superintendente da Área de Investimento em Inovação, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), além de contar com gente bem formada, oriunda de boas universidades e, pelo menos, com pós-graduação, centros de excelência precisam, de alguma forma, atender ao mercado.

"No país, temos bons centros vinculados ao setor público. Mas, quando olhamos especificamente para a indústria de software, o que temos é um setor excessivamente pulverizado", avalia, referindo-se a um universo de cerca de 5 mil empresas, a maioria absoluta de pequenas. "Precisamos de empresas de maior porte, que possam atender ao mercado com produtos mais complexos. Que consigam atender ao governo, que é o maior comprador, e não pode comprar picado", argumenta.

Se o consumidor governo representa 60% da economia na área de informática, por isso mesmo cabe ao Estado, via compras governamentais, o papel de indutor de desenvolvimento de áreas como a de software, classificada como prioritária pela política industrial do governo federal. Embora essa política não esteja implementada, Eduardo Costa considera que o recém anunciado Fundo de Pesquisa de Ciência e Tecnologia (Funtec) e a Lei de Inovação (ainda não aprovada) são boas novas para as empresas de base tecnológica e os centros e institutos de P&D. "Antigamente, tínhamos as idéias, não o dinheiro. Agora, o Funtec ainda não está totalmente estruturado, mas têm, assegurados, recursos de R$ 180 milhões, provenientes do lucro líquido do BNDES", diz.

O Fundo será direcionado para projetos ligados à inovação e produção, não à pesquisa - que será atendida pelos investimentos incentivados da Lei de Inovação. Este ano, a Finep, tem disponíveis R$ 400 milhões para financiamentos. Para atender empresas de base tecnológica, está em gestação o Criatec (que deve ser anunciado em duas a três semanas), um programa que possibilitará "uma idéia virar empresa", informa Eduardo Costa. Os recursos poderão ser canalizados sob forma de fundos não-reembolsáveis, compra de ações ou aquisição de lotes de protótipos.

Nem iniciativas como essas ou recursos oriundos dos incentivos fiscais da Lei de Informática garantem o sucesso de empreendimentos de base tecnológica. Sílvio Meira, engenheiro formado no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), doutor em informática pela Universidade de Canterbury (Inglaterra) e, segundo ele mesmo, "cientista-chefe responsável pelo depois de amanhã" do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), sediado no Porto Digital diz que "a indústria de software depende de políticas governamentais, sim, mas não das compras do governo, porque o Estado não tem uma estratégia definida. Para adquirir software, não adianta contratar na base de homem-hora", afirma.

"Produtividade, qualidade, capacidade são critérios mundiais essenciais a um centro de excelência. Estamos inseridos num setor global, onde só o preço não adianta, já que não se trata de uma indústria de brinquedos de plástico. Então, faço muito, sei fazer com qualidade, sei fazer com muita gente", argumenta. Há mais de mil escolas de graduação em informática no país, mais de 8 mil empresas de software, um mercado interno de mais de R$ 8 bilhões. "Mas temos problemas: a quantidade e a qualidade do capital humano não são suficientes para alavancar o setor", diz Meira.

Em oito anos de atividades, o Centro gerou cerca de 30 empresas, das quais 22 sobrevivem, uma taxa de sobrevivência da ordem de 70%, o que é um feito. São clientes do Cesar, entre outros, a Motorola, Nokia, Siemens, além de órgãos governamentais.

Associação civil sem fins lucrativos, em 2003, o Cesar faturou R$ 20 milhões, dinheiro revertido para o Centro de Informática da UFPE. Entre os principais produtos projetados no Cesar, Meira cita o desenvolvimento conjunto com a Motorola de jogos para terminais celulares; sistemas para automação de supermercados; sistema de avaliação de desempenho de servidores (para a Itautec). O Cesar está criando uma unidade de negócios voltada para o mercado externo.

Sediada no Recife e com unidades em Belo Horizonte e Campinas, a FITec Inovações Tecnológicas, ao longo de quase uma década de existência, nunca dependeu dos recursos de incentivos fiscais que, em 2003, responderam por menos de 10% de seu faturamento de R$ 30 milhões.

A FITec atua nas áreas de telecomunicações, energia, automação e tecnologia da informação. Desde 2003, conta Aderbal Alves Borges, diretor de desenvolvimento de negócios, a FITec tem uma linha de produtos próprios, cuja tecnologia transfere, mediante pagamento de royalties. Na área de comunicação de dados em redes elétricas, fabrica modems PLC (Powerline Communication). Com a Lucent, desenvolveu, para o mercado mundial, uma central telefônica de nova geração (NGN) baseada em uma única placa (2 milhões de linhas de código), em teste em vários países.

A Fundação Certi - Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras, de Florianópolis, que nasceu em 1982, "sem padrinhos no governo ou na iniciativa privada", conta Carlos Alberto Schneider, superintendente geral. Inicialmente voltada para a área de automação industrial, a Certi sempre dependeu de projetos de interesse das empresas para subsistir. Dos 180 profissionais do centro, 75 dedicam-se a P&D, dentre eles cerca de 17 são mestres, cinco são doutores.

As especialidades Certi, diz Schneider, estão nos segmentos de metrologia, mecatrônica (para produtos de automação bancária como máquinas ATM) e incubação de empresas (Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas - Celta). Foram gerados na Certi a linha de caixas automáticas compactos e terminais para câmbio de moedas fornecidos pela Diebold Procomp ao Banco do Brasil, e terminais públicos para acesso à internet, utilizado por vários bancos.

A inovação está longe de se restringir a instituições de pequeno porte ou sem fins lucrativos. O grupo Siemens, além de parcerias com universidades, tem seus núcleos de excelência nas plantas de Curitiba (centrais telefônicas de nova geração - NGN - e estações radiobase) e de Manaus (centrais telefônicas e terminais fixos e móveis). "Em telecomunicações, a Siemens do Brasil é um dos nove centros mundiais de desenvolvimento do grupo", diz Ronald Martin Dauscha, diretor de tecnologia corporativa do grupo Siemens, acrescentando que os investimentos anuais no país, dentro e fora da empresa, são da ordem de R$ 80 milhões, em 2004 serão de R$ 100 milhões, a quase totalidade (85%) em software. Das linhas Siemens no país, com projeto e fabricação locais, saem para o mercado internacional PABXs de pequeno e médio portes.


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