SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 30/07/2004
Autor: Estado de São Paulo
Fonte: Estado de São Paulo

Com empresa júnior, aluno vira empreendedor

Elas negociam como gente grande em plena adolescência. O Brasil tem hoje quase cem vezes mais empresas juniores do que há 15 anos, quando a primeira delas apareceu por aqui. A idéia é francesa e representa hoje um dos raros incentivos ao desenvolvimento do empreendedorismo nas universidades brasileiras. O amadurecimento trouxe mais e maiores clientes. Grandes empresas e multinacionais passaram a optar por consultorias, pesquisas e projetos de empresários juniores, que não ganham nada pelo trabalho e representam menos de 1% dos estudantes de graduação do País.

O crescimento resultou na escolha do Brasil para a 1.ª Conferência Mundial de Empresas Juniores, que começa amanhã, em Fortaleza. Muitos dos participantes serão da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição com o maior número de empresas juniores. Lá, uma ¿Avenida Paulista¿, como é chamada a pequena rua entre as faculdades de engenharia, separa empreendedores das áreas de química, computação e elétrica.

Salas simples, computadores, poucos móveis e uma jovem de 20 anos chamada de presidente. Mariane Pinhal veste-se com a camiseta da empresa júnior de engenharia de alimentos, o Gepea. Fala em planejamento estratégico, em metas, nas mudanças que a sua gestão tenta fazer na empresa. Pensa numa maneira diferenciada para buscar clientes. ¿Com o tempo, ex-membros de juniores foram trabalhar em grandes empresas e agora nos procuram¿, lembra, do outro lado da ¿Paulista¿, Carla Figueiredo Castro, de 20 anos, diretora da Propeq. Ela usava sua tarde de julho ¿ mês de férias na faculdade ¿ para selecionar estagiários para a empresa de engenharia química. A Propeq tem cerca de 50 clientes atualmente e já foi procurada por gigantes como Alcoa, 3M e Unilever.

As empresas juniores, no entanto, sempre focaram em micro e pequenas empresas, principalmente pelo valor das consultorias e projetos, mais de 50% inferior ao que é cobrado por empresas convencionais que oferecem os mesmos serviços. No armário do Gepea, produtos desenvolvidos para gente que aposta numa grande idéia para mudar de vida. Pinga de limão e mel, leite de soja, catchup de tomate seco. ¿Eles são muito dedicados e têm a retaguarda dos professores¿, diz Pedro Saler Zago, que está pagando R$ 2.300 para que a empresa desenvolva um salgadinho feito de banana, a banana chips. As pesquisas estão sendo feitas em laboratórios da Unicamp, com supervisão de doutorandos da universidade.

De graça ¿ O faturamento total das 600 empresas juniores do País cresceu de R$ 3,5 milhões, em 2001, para R$ 4,5 milhões, em2003, última estimativa da Brasil Junior, entidade representativa do setor. A média é de R$ 7.500 por ano, por empresa. O valor não é, nem deveria ser, expressivo. O objetivo maior das empresas juniores é o desenvolvimento dos estudantes e o contato com o lado prático da profissão, com noções de gestão e execução de projetos que dificilmente teriam como trainees ou estagiários.

Diretores, presidentes e outros membros da administração das empresas trabalham de graça. Professores não ajudam nessas funções, apenas supervisionam ¿ com maior ou menor atuação ¿ e às vezes assinam os trabalhos feitos para clientes. A possibilidade da utilização indireta do serviços de mestres e doutores de grandes instituições de ensino superior ¿ a preços módicos ¿ também é um chamariz para clientes.

Algumas das empresas remuneram estagiários contratados para tocar os projetos. Outras nem isso. Tudo o que entra é reaplicado na empresa, com compra de materiais, cursos e outras despesas. O máximo que o cliente paga por um trabalho gira em torno de R$ 20 mil. As empresas juniores são fundadas por estudantes, têm CNPJ próprio e usam um espaço cedido pela universidade.
Juliano Dutra, que foi um empresário júnior durante a faculdade e acaba de abrir uma empresa de tecnologia de informação, acrescenta um cunho social à iniciativa. ¿Geramos empregos e podemos mudar a realidade.¿ Aos 24 anos, recém-formado, ele diz não ter medo de começar sua carreira como empreendedor. ¿A empresa júnior desmistifica os problemas tributários, a abordagem do cliente, a gestão. Não via a hora de abrir meu negócio.¿

Perto da academia ¿ Fundada em 2001, a Ibmec Junior Consulting já faz 17% de suas consultorias para grandes empresas. ¿As pequenas às vezes chegam com a idéia de que faremos o trabalho de graça e acabam não fechando negócio¿, diz o presidente Ricardo Ramos Pereira de Souza, de 20 anos. A Ibmec Junior abriga estudantes de Administração de Empresas e Economia e oferece pesquisas de mercado, análises estratégicas e financeiras, estudos de viabilidade de produtos. Suas estatísticas mostram que 60% dos serviços que realmente são postos em prática ¿ entre os orçamentos requisitados ¿ são para médias e grandes empresas.

¿Procuramos embasamento acadêmico. Com a universidade, muitas vezes, conseguimos atualizar as melhores práticas¿, diz a consultora da Alcoa Alumínio, Mirian Senoi. Quando precisou ¿revisar seus métodos¿, a multinacional americana já contratou empresas juniores do Ibmec, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

O diretor-regional de Química Fina da Basf, Ansgar Ville, achou graça quando se deparou com jovens estudantes engravatados em reuniões. O presidente da empresa no Brasil chegou a questionar no início, mas a Basf decidiu contratar a empresa júnior da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para fazer uma análise socioeconômica de projetos em Guaratinguetá, interior de São Paulo. ¿Deu muito certo. É uma forma de detectar talentos.

¿ Talento detectado, o estudante de engenharia mecatrônica Vitor Marcelino, de 23 anos, garantiu um emprego. Por meio da empresa júnior Mecatron, desenvolveu uma máquina para vedar a amônia num aparelho de detecção de drogas. Projeto c o m p l i c a d o , mas que custou R$ 25 mil e reduziu em 80% os custos do cliente, que importava o maquinário e agora já está montando uma fábrica no Brasil. ¿Estou com eles lá em Valinhos¿, conta Vitor, orgulhoso.

O Ministério da Educação (MEC) não tem nenhum programa de incentivo para formação de empresas juniores. A Avaliação das Condições de Ensino, feita em faculdades, universidades e centros universitários, até o ano passado valorizava atividades como estágios e iniciação profissional em cursos de Administração de Empresas. As empresas juniores muitas vezes acabaram sendo incluídas nesse critério e rendiam pontos à instituição avaliada. O novo sistema proposto pelo atual governo ainda discute o que será levado em conta na Avaliação de Condições de Ensino.

Evento vai discutir regulamentação
Entidade defende um sistema de avaliação e a inclusão das empresas no currículo universitário Ninguém sabe dizer qual foi a primeira empresa júnior do País. Estudantes da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) brigam pelo pioneirismo, que veio em 1989. ¿Hoje, não temos mais rixa¿, diz o presidente da Junior Faap, Bruno Villar, de 20 anos.

A afirmação retrata o atual momento das empresas juniores no País. Núcleos, federações e uma entidade nacional as agruparam recentemente e deram força ao movimento. A 1.ª Conferência Mundial de Empresas Juniores vai discutir regulamentações para o setor. ¿Defendemos um sistema para avaliar e validar as empresas juniores¿, diz o diretor administrativo da Brasil Junior, Daniel Lago. Querem também que o empreendedorismo faça parte do currículo no ensino superior, com disciplinas específicas.

O ministro da Educação, Tarso Genro, foi convidado, mas não confirmou sua participação no evento, que vai de amanhã até sexta-feira. Já Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, estará lá e falará sobre programas do governo direcionados ao jovem brasileiro, que atendem principalmente o adolescente e não o universitário.

Além de ser o berço das empresas juniores, quase um terço delas está em São Paulo. No fim de 2003, surgiu aqui também a primeira localizada em uma faculdade de Medicina. Segundo Lago, a expansão do setor ¿ inicialmente focado em administração e engenharia ¿ está incentivando também a área de biológicas. ¿Vamos oferecer consultorias a pequenos hospitais, clínicas e consultórios¿, diz o presidente da Medicina Junior, da USP, Alexandre Chang. Os alunos ainda estão se capacitando em cursos oferecidos pela FGV e pelo Hospital das Clínicas.

No fim de 1989, eram sete as juniores no País: além da FGV e da Faap, havia a Poli Junior (da Escola Politécnica), o Gepea, o 3E (ambas da Unicamp), a Empresa Junior Mackenzie e a Mauá Junior (do Instituto Mauá de Tecnologia). Elas foram estimuladas pela Câmara de Comércio França- Brasil, que fez palestras em instituições sobre a importância do empreendedorismo entre estudantes. Na França, as juniores surgiram em 1967 e se espalharam pela Europa nos anos 80. Os EUA só recentemente fundaram suas primeiras empresas juniores.


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