SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 25/11/2004
Autor: Gazeta Mercantil - SP
Fonte: Tulio Severo Junior

Empreender para o crescimento

Especialistas de diferentes setores concordam que a educação é um dos caminhos mais importantes a serem seguidos na busca pela geração e distribuição de riquezas

Um dos grandes desafios deste fim de século em nosso país é encontrar respostas para a questão do desemprego. Nossa população economicamente ativa soma cerca de 72 milhões de brasileiros, mas o número de postos de trabalho está num nível inferior ao registrado há dois anos. Parte desse problema se deve às crises enfrentadas pelo País desde 1997. Outra parte, no entanto, é fruto de mudanças estruturais já processadas e em curso na economia - não só no Brasil como em outras partes do mundo. Para enfrentá-las, portanto, são necessárias medidas que visem o longo prazo. E especialistas de diferentes setores concordam que a educação é um dos caminhos mais importantes a serem seguidos na busca pela geração e distribuição de riquezas. É dentro desse contexto que a introdução da matéria "empreendedorismo" nos currículos universitários e escolares deve ser considerada.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro de que tipo de educação estamos falando. Afinal, quais devem ser os pré-requisitos do ensino que prepare o cidadão do próximo milênio? Como as salas de aula poderão se transformar em mecanismo de ascensão social e num verdadeiro laboratório do desenvolvimento sustentável do nosso país?

Evidentemente, a atenção com qualquer jovem que esteja estudando é um ponto básico. Afinal é uma minoria que consegue se manter estudando e uma menor parte ainda que consegue ir para uma universidade. No lançamento do Plano Plurianual, rebatizado de Avança Brasil no governo FHC, o governo anunciava a meta de, até o ano 2003, colocar todas as crianças em idade escolar nas salas de aula. Isso infelizmente não ocorreu até agora, mas, de qualquer forma, abordar esse tema como foi feito e priorizar o investimento nessa área foi fundamental, devendo ser a prioridade número 1 em qualquer sociedade que pretenda se desenvolver. Para se ter uma idéia da gravidade do problema, 16% da população brasileira é composta por analfabetos. A falta de escola - ou mesmo uma escolaridade deficiente - produz mão-de-obra desqualificada, afeta a produtividade das empresas, prejudica a qualidade dos produtos, mantém salários em patamares baixos, afasta investidores. Enfim, emperra o desenvolvimento.

Mas, se educação básica e fundamental já é difícil implementar, a pior notícia é que elas somente já não bastam. Estão formando jovens para procurar empregos num mundo sem empregos e ainda falam que os jovens estão "perdidos". Mas quem está perdido é o nosso Conselho Nacional de Educação, que ainda não atentou para as mudanças do mundo, não instituindo a adoção de aulas de empreendedorismo nas escolas e universidades brasileiras. O objetivo da nova disciplina será, além de capacitar os estudantes a desenvolverem seu plano de negócios, ou seu plano de vida - sim, de vida também, porque a vida depende de planejamento de longo prazo e quanto antes for feito mais longe se chegará -, capacitá-los também a conhecerem o mundo empresarial e permitir aos jovens pensar em seus sonhos. Porque nossas escolas não motivam ao sonho, nem ao autoconhecimento, à criatividade, ao prazer, à ideologia, à cidadania, à auto- estima, ao senso de oportunidade, à inovação, à democracia. O sonho é o princípio da realidade. Nossas escolas são voltadas para a formação de competências e privam a liberdade de errar, de propor e fazer, essenciais ao desenvolvimento de pessoas criativas. Empreender é para a vida como água é para a vida. Empreendedor sem ideologia é um desastre.

O ensino do empreendedorismo no Brasil tem como missão salvar as próximas gerações de estudantes, dando-lhes oportunidade de reverter a estatística assombrosa da mortandade infantil de empresas brasileiras, que é notoriamente alardeada pelo Sebrae - em cada dez empresas novas que abrem, oito morrem antes de completar cinco anos de vida. A principal razão disso: o total despreparo em planejamento dos nossos empresários. Ou seja, o brasileiro é cotado como de alto coeficiente empreendedor, mas com uma ineficiência catastrófica. A latinidade ajuda muito na arrancada, mas ao longo do trajeto nos faz confundir trepidação com velocidade.

É importante ressaltar um outro aspecto. Além de preparar melhor o cidadão para os desafios do mercado de trabalho, a adoção da nova matéria na educação mostrará aos jovens que empreender não é só ganhar dinheiro, mas sobretudo interagir socialmente de forma ética e responsável. A disciplina, portanto, contribuirá para a socialização dos estudantes, reforçando a noção do significado de fazer parte de uma coletividade e mostrando como é vital a cooperatividade sistêmica para o seu pleno desenvolvimento sustentável.

O empreendedorismo tem uma grande contribuição a dar ao nosso país. Essa contribuição ganha relevância ainda maior se pensarmos que, nesta virada de milênio, uma das características mais marcantes da economia mundial tem sido a prevalência crescente do setor terciário sobre o setor secundário. Vale dizer, os negócios envolvendo serviços e comércio estão superando os ligados à indústria.

Só no Brasil o setor terciário já responde por 60% do PIB, enquanto o secundário fica com uma fatia de 30%. Sendo assim, é forçoso concluir que uma das saídas para o desemprego é e será a prestação de serviços. Mais uma razão para levar o empreendedorismo para os estudantes de todo o Brasil.

Num país onde para se usar cinto de segurança é preciso a instituição de uma lei federal, será que vamos precisar baixar uma lei para que o empreendedorismo possa ser implementado?

kicker: A falta de escola produz mão-de-obra desqualificada e afeta a produtividade.


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