SEBRAE/SC - Artigos para MPE's

 
  Data Inclusão: 29/11/2004
Autor: Andressa Ravoni
Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO

Crescimento sustentado

Saber gerenciar e delegar tarefas fazem a diferença quando a empresa começa a engrenar


APÓS SUCESSO, GESTÃO VIRA PRIORIDADE

Expansão faz empresário perder contato com produção e assumir escritório


Quando um negócio prospera muito depressa, as atitudes escolhidas pelo empreendedor colocam o futuro da empresa em xeque. "Tanto a falta como o excesso de clientes pode matar uma iniciativa", alerta Heitor Penteado, 38, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Inovação da Business School São Paulo.
Para acompanhar o ritmo e manter a empresa em alta, é problemas próprios do "boom" ou investir mais no negócio, ampliando a estrutura.

Mas, invariavelmente, entre as novas preocupações daqueles que viram o negócio espichar, está o dilema entre permanecer no dia-a-dia da empresa, fazendo o que sempre fez, ou assumir conduta gerencial, com atenção voltada para a administração.

A segunda opção -nem sempre muito bem-aceita pelos empresários- implica abandonar parte do perfil empreendedor que fez a empresa crescer e investir em novas habilidades, necessárias para enfrentar situações que antigamente não existiam.

Para quem tem dúvidas, os consultores alertam: sim, é saudável abandonar a linha de produção e passar a acompanhar o negócio a partir do escritório.

"O empreendedor cresce e quer continuar realizando sozinho todas as funções. Mas ele precisa se desligar do operacional e focar seu trabalho nas questões estratégicas da empresa, para que ela não desande", afirma Penteado.
Foi o que fizeram as irmãs Andréa, 37, e Silvina Ramal, 34, depois que a ID Projetos Educacionais (produção de material educativo), fundada por elas, começou a crescer. No primeiro ano do negócio, em 2001, Silvina conta que não tinha férias, feriados nem fins de semana. "Eu não me arrependo. Crescemos rápido [de três clientes, em 2001, para 15, em 2004], mas acho que não poderia ter sido diferente", conta.

Há dois anos, porém, ela delegou a área administrativo-financeira para um profissional contratado e passou a cuidar de novos negócios, área estratégica para a firma. "É muito difícil desvincular o negócio da figura do dono. Há clientes que fazem questão de ser atendidos por nós [sócias]."

Mais espaço
Como o crescimento pode ser também físico, mudanças estruturais tornam-se inevitáveis. É o caso de Fernando Ohta, 21, sócio do restaurante MoriSushi Jardins. Aberto em fevereiro, o local recebia, diariamente, cerca de cem clientes. Em maio, "tudo duplicou", e hoje ele chega a servir 350 pessoas nos dias mais badalados. "Passou a ter fila na porta. Achei que demoraria para fidelizar clientes. Fiquei assustado", conta.

Para dar conta da demanda em 2005, o restaurante estará fechado no final do ano. Motivo: reforma. "Está faltando cadeira", diz ele. "Vamos mudar a disposição das mesas para atender mais gente."

Hoje ele tem 37 funcionários, cinco deles contratados para reforçar o time. E conta que também recrutou alguém para ser seu braço direito no negócio. "Minha vida seria muito mais complicada se eu não tivesse uma gerente administrativa", afirma.



PUBLICITÁRIO VOLTA A ESTUDAR PARA GANHAR SEGURANÇA


Voltar a estudar foi a saída vista pelo publicitário Sandro Ari, 38, para dar conta do lado administrativo da firma da qual é sócio, a Cia. Marketing Group.

"O negócio exigia MBA ["Master in Business Administration'], e percebi que tinha de saber das novas tendências. Sentia falta de entender os meandros da administração. Já estou notando a diferença", conta Ari.
"Para continuar a crescer, o empresário deve buscar capacitação", diz Alessandro Saade, da Mercatus Educação em Negócios.

As novidades trazidas das aulas de Ari foram apenas uma das mudanças ocorridas na empresa, que cresceu tanto no último ano que acabou perdendo o foco. "Os clientes foram pedindo diversidade de produtos e de serviços e fomos crescendo sem nos dar conta", diz.

]Uma consultoria externa fez uma faxina na estrutura da empresa e mostrou que ela já não atendia mais as necessidades do negócio, apesar do crescimento acelerado. Para chegar a essas conclusões, ouviu os clientes para avaliar a forma como a empresa era vista.

Apesar de aprovarem a qualidade do serviço, os clientes não sabiam definir ao certo as atividades desenvolvidas pela firma. Com a ampliação do foco, o empreendimento deixou de ser apenas uma promotora de incentivos e, segundo Ari, cresceu 70% em um ano.

"Dividimos a empresa em células, como se cada uma fosse uma miniagência, com atendimento independente." O número de funcionários cresceu 20% -agora são 40.


SELEÇÃO E FORMAÇÃO DE EQUIPE SÃO PONTOS CRÍTICOS

O ponto que mais exige cautela para a empresa que cresce de repente é a formação da equipe. O empreendedor, por não encarar a mão-de-obra de qualidade como investimento ou por não saber selecionar, pode ver o negócio naufragar tão rápido como floresceu.
"É fundamental escolher as pessoas certas para estarem ao seu lado [do empresário]. E, para isso, talvez o melhor seja não economizar. Mesmo que custe mais caro, a diferença no salário de uma pessoa qualificada não é nada perto do benefício de ter alguém alinhado com o negócio e com o chefe", alerta Celso Ienaga, sócio-diretor da Dextron Management Consulting. "Dez pernas-de-pau não fazem um craque", compara.
Mas não basta só selecionar bons profissionais para acompanhar o empresário na subida. Alessandro Saade, 36, diretor da Mercatus Educação em Negócios, complementa: "Nenhuma empresa cresce concentrada. A principal forma de crescer é delegar. Para o empreendedor, é uma quebra de paradigma porque dá uma sensação de fracasso, de conflito interno. Às vezes, ele não está preparado para passar o bastão".

Limites
De um mês para o outro, Ana Davini, proprietária da AD Comunicação e Marketing, teve o faturamento quadruplicado com a entrada de oito dos dez clientes que tem hoje. Correu para contratar mais três pessoas e terceirizou serviços. "Tive de aprender muita coisa sozinha, e investi em pessoas que hoje são responsáveis por áreas que eu não domino. Continuo supervisionando tudo."
Confiança também é necessária para delegar. "Há os que contratam e acabam fazendo as mesmas tarefas, só que com mais gente em volta", diz Heitor Penteado, da Business School São Paulo.


AMPLIAÇÃO SINALIZA HORA DE CAPITALIZAR


Especialistas em gestão de negócios são unânimes quando o tema é aproveitar o crescimento para ampliar ainda mais a empresa. É hora de profissionalizá-la.
"Identificar por que a firma está tendo sucesso e acompanhar o fluxo de caixa tornam as decisões mais sólidas. Muitas vezes, o dinheiro que está sobrando não é lucro realmente, mas capital de giro", diz o consultor em gestão empresarial Milton Moraes, 48.
As escolhas vão variar conforme o perfil do empreendedor. "Normalmente, ele escolhe atender novos mercados ou diversificar os produtos ou os serviços que oferece", analisa Helcio Honda, consultor do Senac-SP (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo).
E emenda: "Mas o leque de opções é grande para quem quer continuar crescendo".
Entre as oportunidades para ampliar o negócio, estão abrir a empresa para novos sócios, buscar o apoio de fundos de investimento, contratar um administrador que gerencie a empresa ou fazer um empréstimo bancário.
"[Valorizar] a figura do "dono" da empresa faz parte da cultura do país. Mas pode ser interessante chamar um profissional para tocar o negócio que o "dono" criou e ser subordinado a ele. Assim, ele mantém seu olhar empreendedor e busca outras oportunidades", avalia Celso Ienaga, da Dextron.

Visão empreendedora
Na maioria dos casos, para injetar capital na firma é fundamental que o empreendedor tenha visão global do empreendimento e apresente aos investidores estratégias para os próximos anos.
Um plano de negócios definido desde a abertura da firma auxilia a estruturar passos futuros e abre portas para o diálogo com o investidor, que terá o material como base de avaliação.
"Mas é importante também entender o negócio como ele está hoje, os interesses dos possíveis acionistas e as capacitações que serão necessárias dentro da firma", recomenda Rogério Carvalho dos Santos, 33, fundador da Cypress Associates, consultoria especializada em desenvolvimento de negócios.

Fundo de investimento
A Eccelera é uma das administradoras de fundos que têm como foco investir em pequenas empresas com alto potencial de crescimento e de exportação.
Sergio Godoy, diretor de negócios da companhia, explica que a empresa que procura um investidor deve ter como perfil um diferencial de mercado, uma equipe inicial eficiente e também ser um negócio que "já pare em pé" e apresente rentabilidade.
"Tentamos transmitir uma cultura de profissionalização para o negócio. Entramos, criamos discussões e revisitamos as estratégias adotadas pelo empreendedor", explica Godoy.
Atualmente, a Eccelera tem 12 pequenas empresas associadas e viu seu faturamento agregado crescer seis vezes nos seus quatro anos de existência. "Quando o empreendedor trabalha sozinho, isolado, não tem com quem discutir. Um sócio certamente fará a empresa ficar mais forte."

Capitalização
Fábio de Souza Abreu, 42, bem que tentou vender seu plano de negócios para fundos de investimento quando decidiu criar a AxisMed (empresa especializada na assistência a pacientes crônicos) em 2001.
"Mas foi um ano difícil para os fundos, que sofriam com os investimentos feitos em internet", conta. "Enfrentamos, então, o problema de toda empresa: queríamos investidores, que queriam clientes, que queriam investidores. Conseguimos equacionar o negócio buscando financiamento de empresas", avalia Abreu.
Em seis meses, a nova firma já tinha 15 sócios e o aporte inicial de R$ 2,5 milhões. "Apresentamos o negócio para cada um dos empresários", conta. "Se o empreendedor precisa de investimento, não aconselho empréstimo bancário. Ou procura um fundo de investimentos ou vai para uma incubadora, mais voltada para empresas de tecnologia, ou agrupa pessoas que têm interesse em investir no seu negócio."


EX-REPRESENTANTE "SOFRE" COM TAREFA DE EMPRESÁRIO

Há dez anos, Jandir Barboza, 40, deixou o cargo de representante comercial de ferramentas para máquinas de uma empresa suíça e abriu, com mais dois sócios, a própria indústria de peças para embalagens.

Ele se lembra com satisfação de como a oportunidade foi identificada: "Observamos que esse ramo era carente e desde o começo já tínhamos clientes".
No início do negócio, os três sócios cuidavam sozinhos da SBR Usinagem de Precisão. Hoje, com 14 funcionários e único proprietário, Barboza estima crescer 30% neste ano.

"Era uma ampliação moderada, agora deslanchou."
Há dois anos, com o aumento dos pedidos e do número de funcionários, ele teve de abandonar a linha de produção para gerir o negócio e manter a qualidade dos produtos.

"Eu saí da área técnica, que é a de que eu gosto, e, de uma hora para a outra, tive de administrar uma empresa. Acho [gerenciar] uma perda de tempo. Preferia produzir, mas não posso delegar 100%. E delegar e ficar fiscalizando não dá."
Apesar de não sofrer concorrência direta, Barboza diz que não esperava crescer tanto.

Neste ano, aproveitando o sucesso da firma, o empresário fez um empréstimo bancário e comprou três novos equipamentos, para ampliar sua capacidade produtiva.
Barboza elenca as maiores dificuldades quando se começa a crescer: "Largar a produção foi muito difícil e encontrar mão-de-obra qualificada, também".
E completa: "Outra preocupação é fornecer com a mesma qualidade e o mesmo atendimento de quando éramos menores. A gente tem de ir aprendendo as coisas".


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