SEBRAE/SC - Notícias para MPE's

 
  Data Inclusão: 18/08/2003
Autor: TERCIANE ALVES
Fonte: O ESTADO DE SÃO PAULO
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Brasileiro vira empreendedor em tempo de crise

O baiano João Batista Alves Pereira, de 48 anos, é um dos milhões de brasileiros que, depois de uma carreira bem-sucedida, teve sua vida profissional afetada por um plano econômico. Depois de perder o emprego no auge das mudanças do governo do então presidente José Sarney, virou empreendedor. Gostou tanto que diz que não há volta agora.

"Era 1986, tempo do Plano Cruzado. O mercado financeiro parou. Eu era operador de leasing no Unibanco. Fiquei três meses saindo de casa com terno e gravata, e passava o dia jogando palavras cruzadas", relembra. "Até que chegou o dia em que todos os profissionais, que eram recém-contratados como eu, foram cortados."

Pereira reconhece que não foi fácil. Ele tinha 31 anos e se sentia como um funcionário que 'vestia a camisa'. Havia trabalhado como operador de leasing, atuado em concessionárias da Scania e de máquinas agrícolas, a Lark. Foi obrigado a conviver com a frustração de ser demitido pela primeira vez na vida e teve vontade de abrir seu próprio negócio. "Era um trabalho longo, de descobrir uma vocação."

Morador de um pequeno sítio, ele estava na sombra de uma árvore, pensando no futuro, quando foi surpreendido pelo convite de uma senhora: "O que acha de me ajudar a trabalhar com chocolates?". "Nunca tinha pensado em fazer chocolates, só em comer." Depois, pensou que, se reunisse o know-how da colega a seu conhecimento de finanças, poderia ter sucesso. Investiu as economias e o dinheiro do fundo de garantia na compra de três fornos. Aos poucos, deu para tirar a empresa da informalidade. Ele passou a fazer cursos. Aprendeu a dar o ponto ao chocolate belga. "São os melhores do mundo."

Essa é a história da Chocolates Marghi, uma pequena empresa com 16 anos de mercado, que cativou a classe média alta, formada por muitos estrangeiros.

Ela vende chocolates e biscoitos decorativos, pintados à mão. Há pequenos em formato de diamante, que brilham conforme a luz; miniaturas de cavalos marinho, de conchas, ratinhos. "Fazemos o que o cliente pedir." Pereira tem sete funcionários, trabalha muito nos fins de semana e é raro tirar férias.

Mas diz que encontrou sua vocação e tem planos de expansão.

Desemprego - Histórias como a de Pereira mostram como o brasileiro vem tentando superar o desemprego. O IBGE divulgou um levantamento, em 22 de julho, informando que 443 mil pessoas ficaram desempregadas no primeiro semestre deste ano nas principais regiões metropolitanas o País. Segundo o IBGE, 13% da população economicamente ativa (PEA) estava desocupada em junho, superando uma marca que por 18 anos permaneceu inalterada.

Estudo da consultoria BPI do Brasil, empresa que atendeu 10 mil profissionais em 48 cidades do País, feito em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que, de 10 mil profissionais dispensados por grandes empresas em 48 cidades brasileiras, nos últimos quatro anos, 25% optaram por montar um novo negócio e 20% atuam como autônomos (consultores, cooperados, entre outros).

"Nos níveis mais altos da pirâmide, onde estão os profissionais com remuneração mais elevada, a dificuldade é maior, pois as grandes reestruturações estão eliminando muitos cargos de direção", diz Gilberto Guimarães, diretor da BPI do Brasil e professor da FGV. O estudo foi feito com profissionais dispensados por grandes empresas como Avon, Brasil Telecom, Embratel, Kaiser, Volkswagen, que contrataram os serviços de recolocação da BPI nos últimos quatro anos.

O fenômeno do empreendedorismo começa a chamar a atenção dos acadêmicos.

Robert Nachtmann, doutor associado do Katz Graduation of Bussines, escola americana de negócios da Universidade de Pittsburgh, destaca o que os Estados Unidos fizeram: "No fim dos anos 80, os serviços financeiros não eram disponíveis aos pequenos empreendedores. Agora, pequenas e grandes empresas têm o mesmo nível."

"O mundo precisa rever a estrutura institucional inteira, que não é preparada para atender pequenos empreendedores em termos de acesso a capital, benefícios de planos de saúde, previdência, distribuição e logística", observa. "Eles enfrentam problemas de recursos enormes por terem escala pequena."


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