Oportunidades de Negócios

 
  Data Inclusão: 11/08/2004
Autor: BETH MELO

Cultivo de camarão marinho dá salto no país

Líder em produtividade, com 6.084 quilos de camarão marinho (Litopenaeus vannamei) por hectare/ano, ante 958 quilos hectare/ano do resto do mundo, o sucesso brasileiro na criação de camarões (carcinicultura) já está incomodando os Estados Unidos, que moveram recentemente uma ação antidumping. O Brasil poderá ter de arcar com a sobretaxa de 36,91% para exportar seu produto aos EUA. No fim do ano passado, pescadores de camarão do Sul dos EUA entraram com ação no Departamento de Comércio daquele país contra seis dos maiores exportadores de camarão para o mercado americano.

Foram acusadas de prática de dumping empresas da China, Tailândia, Vietnã, Equador, Índia e Brasil. No País, a lista inclui as indústrias do Nordeste:

Netuno, Cida e NortePesca - esta penalizada com uma sobretaxa de 67,8%.

"No entanto, os preços do camarão continuam atraentes e o mercado franco, apesar da ação antidumping dos EUA e da produção crescente", afirma o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarões (ABCC), Itamar Rocha. Em 2003, o Brasil faturou US$ 226 milhões com as exportações de camarões e espera alcançar US$ 300 milhões em 2004. A área de cultivo de camarão aumentou 318% entre 1997 e 2003, alcançando 14.800 hectares. A produtividade pulou de pouco mais de 1 tonelada/hectare/ano para mais de 6 toneladas/hectare/ano. No mesmo período, a produção cresceu de 3.600 toneladas para 90 mil toneladas por ano, segundo Rocha. Ele prevê, para este ano, a produção de 117 mil toneladas e o aumento da área cultivada para 18 mil hectares.

Até 1999, a produção brasileira de camarão atendia apenas ao mercado interno. Com a desvalorização do real, os produtores voltaram-se para as exportações. No ano passado, o Brasil exportou 60 mil toneladas de camarão.

"Isso representa uma evolução de 8.000% no período de 1998 a 2003", diz o presidente da ABCC. O Rio Grande do Norte é o primeiro produtor nacional de camarão, o segundo é o Ceará, e terceiro, a Bahia. O Nordeste é o primeiro do ranking em produção e produtividade. De acordo com Rocha, a liderança é devida ao fato de a região possuir grandes áreas apropriadas para o cultivo de camarão marinho, ter condições climáticas excelentes, dispor de alto nível de tecnologia e obter mais de uma safra anual.


Sabor melhor - "O camarão brasileiro tem sabor melhor que o asiático e é livre de antibióticos", diz o agrônomo Eryvan Leal Pires, gerente comercial do grupo Queiroz Galvão, do Rio Grande do Norte, dono da Potiporã Aquacultura. "A América Central e os países asiáticos tiveram problemas com viroses, cujo controle é feito com medicamentos que têm barreiras no mercado europeu."

Equador e Ásia chegaram a dizimar criatórios atacados pela mancha branca.

Conforme o agrônomo, o Brasil tem uma grande vantagem na carcinicultura: a produção verticalizada, ou seja, o País começou a atividade produzindo as pós-larvas. "O clima também não favorece o desenvolvimento do vírus." Ao contrário, explica, os países da Ásia e da América Central começaram os criatórios com larvas tiradas do mar, sem controle de origem.

China e Tailândia são tradicionais produtores e exportadores mundiais camarões. O mercado chinês representa 145 mil toneladas, e o tailandês, 200 mil toneladas. No ano passado, a Tailândia, o maior exportador, enviou para os Estados Unidos 133 mil toneladas do crustáceo. Para ter-se idéia do que representa o potencial tailandês, basta citar os números do Brasil, que exportou, em 2003, 21.783 toneladas de camarão para os EUA, e 38 mil toneladas para a Europa.

Na América do Sul, a maior tradição na criação era do Equador, que foi superado pelo Brasil. "Conseguimos manter a mesma produtividade de janeiro a dezembro", explica Rocha, da ABCC. Segundo ele, a demanda mundial é grande.

Para livrar-se das imposições norte-americanas, desde o começo deste ano os criadores direcionaram suas exportações para a Europa. Tanto que, até junho de 2004, 21% dos embarques brasileiros foram direcionados para os EUA, 76,4 % para a Europa, e 1% para outros mercados.

Conforme a engenheira de pesca da Fazenda Papeba, criatório de camarão marinho do Rio Grande do Norte, Silvana Pereira, a taxação ainda é provisória, mas a decisão definitiva deverá sair em janeiro de 2005. Ela acredita que a medida adotada pelos EUA não afetará muito os embarques brasileiros. "A maioria dos exportadores só vende para os Estados Unidos entre janeiro e março, por causa da sazonalidade da Europa, que pára de comprar nesses meses", diz.

É no Nordeste que estão os grandes criatórios, como a Fazenda Papeba, de Pedro Fernandes, no Rio Grande do Norte, que começou a cultivar camarão marinho em 1996. O criatório, de 30 hectares, é dirigido pela filha de Fernandes, Silvana Pereira. "Compramos as larvas e fazemos a engorda", conta. "Fazemos dois ciclos e meio ao ano." No ano passado, ele produziu 270 toneladas de camarões, volume que deve ser mantido este ano, por causa do excesso de chuva. Segundo Silvana, a produção é vendida para indústrias beneficiadoras do RN e da Paraíba, que são exportadoras e pagam hoje R$ 8,50 pelo quilo do 80/100. "O preço é bom porque o dólar está alto", diz. "Quem dita o preço é o mercado externo."

Sobre a decisão dos EUA de sobretaxar o produto brasileiro, Silvana diz que a questão deve ser vista com cuidado. "O País não pratica dumping, não é verdade que vendemos abaixo do custo de produção", defende. "A margem é pequena, por isso mesmo a criação exige alta tecnologia, daí a necessidade de ajustar os custos de produção."


ATIVIDADE ESTÁ ATRAINDO NOVOS INVESTIDORES

Até grupo ligado à fruticultura possui, hoje, 900 hectares com criatórios no Nordeste

Em março de 2002, o Grupo Queiroz Galvão, do Recife (PE), dono de 350 hectares de manga e 250 hectares de uvas sem sementes, decidiu investir na carcinicultura. Comprou uma fazenda de 1.500 hectares e criou a Potiporã Aquacultura Ltda. Começou com 36 hectares de criação e hoje possui 960.

Segundo o gerente comercial do grupo, o agrônomo Eryvan Leal Pires, foram investidos R$ 100 milhões na fazenda de engorda em Pendências (RN), o laboratório de pós-larvas e a unidade de comercialização, em Touro (RN).

Para dar conta de todas as atividades, a Potiporã possui mil empregados na fazenda e 500 na unidade industrial.

"Estamos estudando a instalação de uma fábrica de rações para camarões", antecipa, informando que 40% do custo de produção são gastos com ração.

"Temos 60 mil hectares de cultivo com aeração, e 48 mil, sem", conta. A produtividade média é de 7 toneladas por hectare, mas chega a 10 toneladas com aeração. O grupo consegue duas safras e meia por tanque, com despesca de janeiro a janeiro.


Contêineres - Para este ano, Pires prevê produção de 7 mil toneladas, sendo 10% para o mercado interno e 90% destinados às exportações para Europa e Estados Unidos. Os primeiros embarques totalizaram sete contêineres e foram realizados em dezembro de 2002. No ano passado, o grupo enviou 115 contêineres. "Este ano, devemos chegar a 300 contêineres", diz Pires, acrescentado que cada contêiner rende US$ 100 mil.

De acordo com Pires, o preço do produto é classificado pelo tamanho. O PUD é o camarão cru sem casca, mas com intestino; o PD é o sem casca e sem intestino; o PTO é o descascado, porém com o último segmento do rabinho; o Butterfly é o camarão aberto, próprio para sushi. O camarão 80/100 (80 a 100 unidades por quilo) inteiro, com a cabeça, é vendido para a Europa por US$ 3,40 o quilo. O 51/60, sem cabeça, embarcado para os EUA, alcança 2,10 por libra. "Tem maior valor agregado", diz. A empresa possui escritório na Holanda, junto com o escritório de comercialização de frutas. "Enviamos o produto, armazenamos e distribuímos", diz.


Aeração - Há dois anos, Geraldo Rinaldi resolveu criar camarões de água salgada, na Fazenda Rinaldi, em Laguna (SC). Instalou uma área de cultivo de 46 hectares, toda com aeração. "São 95 aeradores", conta. A água ele captou da Lagoa de Maruí. No total, ele calcula que investiu cerca de R$ 1,2 milhão no criatório. "O terreno é fácil de trabalhar, não tive gasto com terraplanagem", diz.

Na propriedade trabalham 16 pessoas. Rinaldi compra larvas de terceiros por R$ 11 o milheiro. Ele consegue uma produção de 3 toneladas por hectare. "O clima limita a safra", explica. "Consigo uma a duas safras ao ano, com risco de pegar uma mudança climática fora da previsão, o que pode atrasar o crescimento dos camarões."

Em 2003, a fazenda produziu 85 toneladas. Para este ano, a previsão é alcançar 100 toneladas. A produção é vendida para um distribuidor que atende ao mercado nacional e às exportações. Ele consegue, na média, R$ 7,50 por quilo do camarão fresco inteiro. "O comprador vem pegar na propriedade", diz. O custo de produção é de R$ 6,00 por quilo. (B.M.)


CRIAÇÃO DE ÁGUA DOCE DÁ R$ 20 MIL POR HECTARE

Em Piedade (SP), produtor aliou turismo rural à criação do camarão-da-malásia

A criação de camarão de água doce, o camarão-da-malásia, tem encontrado adeptos no País. Há dez anos, Silvio Roberto Ticianelli, dono do Sítio Caminho das Águas, em Piedade (SP), começou a produção comercial de pós-larvas. Fundou a Aquacultura PL Brasil, para a comercialização, e instalou o criatório. Pelos cálculos de Tiacinelli, 1 hectare rende, em média, de 1.500 a 1.600 quilos em uma safra. Isso significa uma renda entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por hectare.

No sítio, ficam as matrizes e as estufas para a venda de pós-larvas. Há um ano e meio, resolveu anexar a criação de camarões a um projeto de turismo.

Abriu um restaurante para divulgar o produto, com acesso a visita de escolas e do público. Também dá curso básico de engorda de camarão, três a quatro vezes ao ano, direcionados ao produtor. As aulas, teóricas e práticas, ocorrem no sítio.

Em 2003, ele produziu 1,5 milhão de pós-larvas, que vende em São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Este ano, ampliou as estufas de estocagem para cerca de 4 milhões de pós-larvas. "Vamos produzir pós-larvas para todo o País", anuncia. Ele conta que a meta é alcançar 1 milhão de pós-larvas ao mês, visando atender à demanda anual do Centro-Oeste, que não tem inverno. O preço das larvas é de R$ 58 o milheiro.

A venda de camarões adultos, produzidos em parceria com criadores de São Paulo, ocorre na propriedade. Tiacinelli compra a produção dos parceiros e paga de R$ 13 a R$ 15 o quilo. "Buscamos a produção na propriedade e fazemos até a despesca." O custo médio de produção no tanque fica entre R$ 8 a R$ 9 o quilo. Na safra 2003/2004, os parceiros produziram 4 a 5 toneladas de camarão, que atendem à demanda dos turistas que visitam o sítio. O preço do quilo do camarão varia de R$ 22 a R$ 30, dependendo do tamanho.


Povoamento - Segundo o criador, o povoamento do camarão ocorre de setembro a dezembro, para fazer a despesca de março a abril. Em Piedade, há um berço-estufa com plástico para antecipar a colocação das pós-larvas. "Conseguimos ganhar um mês", diz. "Cerca de 100 mil larvas são suficientes para 1 hectare de tanque."

Entre os cuidados, ele cita a necessidade de renovação diária de 5% a 10% da água do tanque. O manejo tem outros detalhes, como a observação da presença de predadores, como pássaros e peixes carnívoros. O fornecimento da ração, informa, pode ser feito uma vez ao dia, sendo ideal duas vezes, pela manhã e à tarde. Conforme explica, para garantir a qualidade do camarão, o abate deve ser feito em um tanque com água e gelo. "O camarão é posto em uma caixa submersa e tem morte instantânea", diz. "Esse é o começo da qualidade."

Fonte: O ESTADO DE SÃO PAULO


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